Estudo revela que lagartos reevoluíram armadura óssea 320 milhões de anos depois de perdê-la

Ilustração de esqueleto de lagarto com armadura óssea na pele, destacada em roxo. (Foto: scitechdaily.com)

Há um enigma que persiste desde os primórdios da paleontologia: por que tantos animais tão diferentes — tartarugas, crocodilos, dinossauros, lagartos e serpentes — desenvolveram ossos na pele ao longo da história da vida na Terra? Um novo estudo publicado no Biological Journal of the Linnean Society finalmente oferece respostas sólidas, reconstruindo 320 milhões de anos de evolução dos chamados osteodermos, as armaduras dérmicas dos répteis, por meio de uma combinação inédita de evidências fósseis e métodos computacionais modernos.

Os pesquisadores Roy Ebel, Jane Melville e J. Scott Keogh analisaram dados de 643 espécies vivas e extintas para mapear como esses ossos cutâneos surgiram, desapareceram e, em pelo menos um caso extraordinário, reapareceram ao longo do tempo geológico. O trabalho encerra um debate que durava séculos e foi publicado no mesmo periódico científico em que Charles Darwin apresentou suas ideias revolucionárias sobre a evolução.

Contrariando a intuição popular, os ossos não surgiram primeiro no interior do corpo dos vertebrados. Seu registro mais antigo remonta a cerca de 475 milhões de anos atrás, quando os primeiros vertebrados desenvolveram um elaborado exoesqueleto ósseo na superfície da pele — o esqueleto interno só viria a existir 50 milhões de anos depois.

Essa capacidade da pele de gerar tecido ósseo reapareceu repetidamente ao longo da evolução, em peixes, anfíbios e, sobretudo, em répteis terrestres. Os osteodermos — nome técnico para esses ossos dérmicos em animais terrestres — podem ter ajudado os primeiros répteis a se adaptar à vida fora da água, oferecendo proteção contra predadores, regulação térmica e até redução da perda de água em ambientes áridos.

Mas o padrão evolutivo desses ossos sempre foi desconcertante: eles desapareciam em algumas linhagens e reapareciam em outras, como se a natureza continuasse tentando a mesma solução para problemas distintos. O estudo, conforme detalhado pelo portal SciTechDaily, revelou que a maioria dos lagartos desenvolveu osteodermos pela primeira vez durante o Jurássico Superior e o Cretáceo Inferior, há mais de 100 milhões de anos.

Nesse período, a Terra era habitada por alguns dos dinossauros mais icônicos da história, como o colossal Brachiosaurus, o feroz Allosaurus e o Stegosaurus com suas placas dorsais características. O clima e os ecossistemas mudavam rapidamente naquela época, criando novos desafios e oportunidades para os animais — e a armadura dérmica pode ter sido uma resposta evolutiva a esse ambiente em transformação, permitindo que os lagartos sobrevivessem a predadores, colonizassem novos habitats e se adaptassem a condições climáticas extremas.

Após esses primeiros surtos evolutivos, o ritmo de surgimento de osteodermos desacelerou, e a maioria dos grupos manteve suas armaduras desde então. Mas há uma exceção notável que desafia até mesmo as leis estabelecidas da biologia evolutiva: os monitores australianos, conhecidos popularmente como goannas.

Os ancestrais dos lagartos monitores perderam completamente seus osteodermos em algum momento do passado evolutivo — provavelmente porque seu estilo de vida ativo e seus corpos eficientes funcionavam melhor sem o peso adicional da armadura. Porém, quando seus descendentes chegaram à Austrália há cerca de 20 milhões de anos, durante o período Mioceno, algo extraordinário aconteceu: eles reevoluíram os ossos dérmicos que seus ancestrais tinham descartado.

O Mioceno foi uma época em que o clima australiano se tornava progressivamente mais seco e árido. Os osteodermos podem ter ajudado os goannas a reduzir a perda de água e a se proteger nas paisagens abertas e hostis que se formavam no continente.

O que torna esse caso ainda mais perturbador para a teoria evolutiva é que os goannas são a única linhagem de lagartos conhecida a readquirir osteodermos depois de tê-los perdido. Esse fenômeno desafia diretamente a chamada Lei de Dollo, um princípio clássico da biologia evolutiva que postula que uma estrutura complexa, uma vez perdida ao longo da evolução, não pode ser reevoluída.

Os goannas provam que essa regra tem exceções — e que a evolução, longe de seguir um caminho reto e previsível, pode retroceder, contornar e reinventar soluções já descartadas. Para chegar a essas conclusões, os pesquisadores utilizaram uma abordagem que eles próprios comparam à investigação de um crime ocorrido há muito tempo: sem uma testemunha perfeita, cada espécie analisada oferecia uma perspectiva parcial, como fragmentos de depoimentos contraditórios que, aos poucos, começam a convergir para uma narrativa coerente.

A computação moderna foi decisiva para transformar essa montagem de evidências em conclusões concretas. Sem os algoritmos capazes de processar milhares de cenários evolutivos simultaneamente, cruzando dados de traços morfológicos de centenas de espécies, seria impossível reduzir a incerteza a um único relato coeso sobre a origem e a dispersão dos osteodermos ao longo de 320 milhões de anos de história reptiliana.

O estudo também lança luz sobre o padrão evolutivo singular da Austrália, um continente que parece desafiar sistematicamente as regras da biologia: marsupiais dominam onde deveriam estar mamíferos placentários, mamíferos botam ovos, e agora lagartos reevoluem armaduras que seus ancestrais haviam abandonado. A Austrália se consolida, uma vez mais, como um laboratório natural onde a evolução escreve suas histórias mais improváveis.

Com a origem evolutiva dos osteodermos agora estabelecida em uma linha do tempo clara, os cientistas poderão avançar para investigar os mecanismos genéticos e de desenvolvimento que permitem à pele dos répteis produzir tecido ósseo. A descoberta não é apenas uma vitória para a paleontologia — é um convite para repensar o quanto ainda ignoramos sobre os caminhos tortuosos que a vida percorreu para chegar até aqui.


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