Uma descoberta acidental feita em laboratório revelou que plantas de arroz são capazes de capturar e matar lagartas da lagarta-do-cartucho-do-milho — uma das pragas agrícolas mais destrutivas do mundo — usando uma armadilha natural formada por pelos microscópicos chamados tricomas. O achado, publicado no periódico Ecological Processes, abre caminho para estratégias de controle de pragas sem agrotóxicos em uma das culturas mais importantes para a segurança alimentar global.
A pesquisadora Devi Balakrishnan, doutoranda do departamento de entomologia e patologia vegetal da Estação Experimental Agrícola do Arkansas, vinculada à Universidade do Arkansas, não estava procurando por isso. Ela conduzia experimentos sobre uma proteína quinase envolvida na sinalização de plantas quando começou a notar algo incomum: lagartas jovens estavam morrendo dentro das espiguetas do arroz.
As espiguetas são a estrutura na ponta da panícula onde os grãos se desenvolvem. ‘Isso não estava no plano’, disse Balakrishnan. ‘Eu estava fazendo outro experimento com lagartas-do-cartucho e comecei a notar que elas estavam dentro da espigueta, e estavam mortas.’
Após comunicar a observação ao professor Rupesh Kariyat, professor associado de entomologia de culturas da Universidade do Arkansas e titular da Cátedra Clyde H. Sites de Fisiologia Internacional de Culturas, a pesquisa tomou um rumo completamente novo. Kariyat orientou Balakrishnan na condução de quatro experimentos complementares para entender o mecanismo por trás das mortes.
Os resultados foram consistentes: cerca de 50% das lagartas com aproximadamente uma semana de vida foram capturadas e morreram nas espiguetas ao tentar se alimentar das flores. O mesmo padrão se repetiu quando folhas de arroz foram colocadas no recinto das lagartas — metade delas morreu em até 48 horas ao tentar acessar o interior floral da espigueta.
O mecanismo funciona de forma análoga ao da vênus-flytrap, a famosa planta carnívora. Durante o estágio de floração, a espigueta se abre para expor a flor à polinização e, coberta por pelos rígidos chamados tricomas, fecha-se lentamente sobre a lagarta presa nas farpas, impedindo sua fuga até que ela morra aprisionada.
Um terceiro experimento investigou se os compostos voláteis emitidos pelas flores poderiam atrair as lagartas até as panículas. Os pesquisadores constataram que as lagartas demonstraram preferência pelas panículas com espiguetas em fase de floração em comparação com aquelas em estágio mais avançado de desenvolvimento do grão, sugerindo que o perfume floral funciona como isca para conduzir a praga diretamente à armadilha.
‘O arroz é uma planta muito defensiva, o que normalmente não dizemos sobre o arroz — não o associamos a plantas tóxicas’, afirmou Kariyat, conforme reportado pelo portal Phys.org. ‘Mas acreditamos que as lagartas-do-cartucho são atraídas porque o aroma floral basicamente diz à lagarta que há comida melhor aqui — especulamos que esses voláteis podem ser responsáveis pela atração das lagartas em direção às flores, que então ficam presas pelos tricomas.’
Os experimentos utilizaram uma variedade selvagem de arroz, cereal originário da Ásia. A lagarta-do-cartucho, por sua vez, é nativa da América do Norte e se tornou espécie invasiva em diversas regiões do mundo, incluindo a África e partes da Ásia, onde representa ameaça crescente a culturas como milho, sorgo e o próprio arroz.
A relevância do achado é amplificada pelo contexto global: o arroz é o cereal básico para cerca de metade da população mundial. A lagarta-do-cartucho vem desenvolvendo resistência a dezenas de inseticidas, tornando seu controle cada vez mais difícil e custoso para agricultores.
A pesquisa aponta para uma alternativa natural que pode ser explorada sem depender de produtos químicos sintéticos. Kariyat indicou que os pesquisadores pretendem investigar se aumentar a concentração dos compostos voláteis florais em um spray poderia atrair e capturar mais lagartas nas espiguetas, com potencial de se tornar uma estratégia de controle de pragas de baixo impacto ambiental.
A descoberta repercutiu além do Arkansas. Em palestras realizadas em abril, Kariyat apresentou os resultados na Universidade Nacional de Taiwan, na Universidade Nacional Chung Hsing, em Taiwan, e no Instituto Internacional de Pesquisa do Arroz, nas Filipinas. ‘Ao final de cada seminário, este era o estudo sobre o qual as pessoas queriam falar’, disse o professor, cujo trabalho foi publicado em coautoria com Devi Balakrishnan na revista Ecological Processes.
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