Fungo coletado em salas limpas da NASA sobrevive a protocolos de esterilização e pode contaminar Marte

Uma sala limpa da NASA, onde são construídas espaçonaves em ambientes cuidadosamente controlados. (Foto: smithsonianmag.com)

Um fungo microscópico encontrado nas instalações da NASA resistiu aos protocolos de esterilização da agência e demonstrou capacidade de sobreviver a condições simuladas de Marte.

A descoberta foi publicada na revista científica Applied and Environmental Microbiology. Ela acende um alerta sobre lacunas nos procedimentos de proteção planetária adotados atualmente.

O microrganismo em questão é o Aspergillus calidoustus, coletado diretamente das chamadas ‘salas limpas’ do Centro Espacial Kennedy, na Flórida, e do Laboratório de Propulsão a Jato (JPL), na Califórnia. Essas instalações são ambientes de controle rigoroso onde engenheiros e cientistas montam componentes de sondas e rovers antes do lançamento.

A pesquisa identificou 27 cepas fúngicas nas instalações usadas durante a missão Mars 2020, responsável por levar o rover Perseverance ao Planeta Vermelho. O A. calidoustus se destacou pela resistência excepcional de seus esporos reprodutivos, que suportaram seis meses de alta radiação — condição semelhante à enfrentada durante uma viagem espacial real.

Os esporos também resistiram a duas horas de calor seco a 125 graus Celsius, temperatura utilizada rotineiramente para esterilizar peças de espaçonaves. Quando submetidos a condições que imitam o ambiente marciano — solo, baixa pressão atmosférica, temperaturas extremamente frias e alta radiação solar — o fungo continuou demonstrando resiliência notável. A única combinação capaz de eliminar os esporos foi a de frio severo aliado à alta radiação simultaneamente.

O microbiologista Atul M. Chander, da Universidade do Mississippi e coautor do estudo, resumiu o espírito da investigação em declaração ao New York Times. ‘Isso é sobre fazer a exploração de forma responsável. À medida que exploramos o universo, queremos ser capazes de enviar naves sem levar junto nenhum micróbio terrestre resistente’, afirmou.

A ex-oficial de proteção planetária da NASA e bióloga vegetal Cassie Conley, que não participou do estudo, declarou à Scientific American que ‘o ponto central é que não conhecemos todas as capacidades da vida na Terra — e não deveríamos fingir que conhecemos.’ Conley acrescentou que a maioria dos biólogos especialistas em extremófilos já suspeitava que organismos terrestres capazes de sobreviver em Marte existem.

Conforme detalha a reportagem da Smithsonian Magazine, o coautor Kasthuri Venkateswaran, ex-microbiologista do JPL, foi cuidadoso ao contextualizar os achados. Os resultados não significam que fungos terrestres já chegaram a Marte, mas refinam a compreensão científica sobre a resiliência microbiana e contribuem para aprimorar as estratégias de proteção planetária da agência.

O tema ganha relevância diante de uma descoberta paralela publicada no início deste ano: pesquisadores identificaram que a bactéria Deinococcus radiodurans — um extremófilo que habita os desertos de altitude do Chile — provavelmente sobreviveria à pressão brutal de ser ejetada de Marte por um impacto. O achado reforça a plausibilidade da hipótese da litopanspermia, segundo a qual detritos rochosos expelidos de planetas durante colisões poderiam transportar micróbios entre mundos.

A busca por sinais de vida microbiana antiga em Marte é uma das prioridades centrais da exploração espacial contemporânea. Descobrir que um suposto organismo alienígena é, na verdade, um passageiro clandestino terrestre seria um erro científico de consequências profundas para décadas de pesquisa. Os resultados do estudo indicam que os protocolos de proteção planetária precisam ser urgentemente revisados para dar conta de organismos fúngicos com resistência fora do comum.


📨 Inscreva-se na Newsletter de O Cafezinho

Receba nossas análises e as principais notícias diárias do Brasil e do Sul Global.

Redação:
Related Post

Privacidade e cookies: Este site utiliza cookies. Ao continuar a usar este site, você concorda com seu uso.