Há décadas, astrônomos tentavam decifrar o poder bruto dos jatos emitidos por buracos negros estudando apenas as cicatrizes colossais que esses feixes deixavam no espaço ao longo de milênios. Era como tentar entender o funcionamento de um motor de combustão analisando marcas antigas de pneu no asfalto, sem jamais ver a máquina em operação.
Agora, uma equipe internacional de cientistas alcançou algo sem precedente na história da astrofísica: a medição direta e instantânea da potência de um jato de buraco negro em plena ação. Os resultados, publicados na revista Nature Astronomy, revelam jatos carregando energia equivalente à de aproximadamente 10.000 sóis, deslocando-se a quase metade da velocidade da luz.
O alvo do estudo foi Cygnus X-1, um dos sistemas de buraco negro mais famosos já catalogados pela ciência, localizado a cerca de 7.200 anos-luz da Terra. O sistema é composto por um buraco negro e uma gigantesca estrela supergigante azul que orbitam uma à outra em dança gravitacional contínua, com a estrela expelindo gás constantemente por meio de ventos estelares intensos.
O buraco negro captura parte desse material através de sua gravidade, e o gás, ao espiralar para dentro, aquece-se a temperaturas extremas e se torna altamente energético. Uma fração dessa energia não é absorvida pelo buraco negro: ela é lançada para fora na forma de dois jatos estreitos e opostos, disparados em direções contrárias com força descomunal.
A estratégia que permitiu a medição inédita não foi observar os jatos diretamente, mas sim analisar como eles interagiam com o ambiente ao redor. Os pesquisadores perceberam que os poderosos ventos estelares da estrela companheira empurravam e curvavam os jatos enquanto eles viajavam pelo espaço, fazendo-os ‘dançar’ sob a pressão do vento — um fenômeno que se tornou a chave para decifrar a potência do sistema.
Conforme detalhou o portal Interesting Engineering ao reportar o estudo, os cientistas analisaram 18 anos de observações de rádio em alta resolução coletadas por uma rede global de telescópios. Ao medir com precisão o grau de curvatura dos jatos e combinar essas observações com simulações computacionais, a equipe calculou a força necessária para que os jatos resistissem à pressão do vento estelar.
Os números obtidos foram extraordinários. Os jatos se moviam a aproximadamente 540 milhões de quilômetros por hora — o equivalente a quase metade da velocidade da luz. Além disso, os cálculos indicaram que cerca de 10% de toda a energia liberada à medida que a matéria caía em direção ao buraco negro era redirecionada para os jatos, revelando uma eficiência de conversão notável.
O novo estudo desafia o padrão anterior de medição, que os próprios autores descrevem como o ‘padrão ouro’ da área: os chamados métodos calorimétricos, que dependiam do estudo das consequências de larga escala deixadas pelos jatos ao longo de milhares de anos. Esses métodos forneciam apenas médias de longo prazo, e não medições instantâneas, deixando os cientistas sem uma visão clara do poder real do fenômeno em qualquer momento específico.
O novo método, ao rastrear como os ventos estelares curvam os jatos em Cygnus X-1, permite efetivamente que os astrônomos meçam a potência dos jatos ao vivo, como se observassem o motor em funcionamento em vez de examinar os rastros que ele deixou para trás. Trata-se de uma virada metodológica que pode transformar a forma como a ciência estuda esses fenômenos em toda a galáxia.
As implicações vão muito além de um único sistema binário. O novo estudo reforça a compreensão de que buracos negros não são apenas aspiradores cósmicos que devoram tudo ao redor, mas também gigantescas máquinas de energia capazes de injetar poder de volta ao universo. Como o próprio estudo aponta, ‘os jatos fornecem um canal importante para o feedback cinético de buracos negros em acreção para o seu ambiente, sem o qual os modelos de formação de estrutura em larga escala no Universo falham em reproduzir as propriedades observadas das galáxias’.
Em escalas muito maiores, jatos semelhantes emitidos por buracos negros supermassivos no centro de galáxias podem aquecer o gás circundante, gerar ondas de choque, agitar turbulências e até mesmo influenciar a formação de estrelas em galáxias inteiras. Compreender a potência instantânea desses jatos é, portanto, compreender um dos mecanismos mais violentos e fundamentais que moldam a arquitetura do cosmos.
A limitação do trabalho, reconhecida pelos próprios pesquisadores, é que ele examinou apenas um sistema binário, e ainda não se sabe se eficiências energéticas semelhantes ocorrem em outros buracos negros. A equipe planeja agora aplicar a mesma técnica a mais sistemas, o que poderá eventualmente revelar, em tempo real, como os buracos negros injetam energia no cosmos de forma sistemática e universal.
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