Lula lança pacote de R$ 1 bilhão contra o crime organizado e mira ‘os que moram em Miami

O presidente Lula em evento oficial com bandeiras do Brasil ao fundo. (Foto: cartacapital.com.br)

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva lançou o programa Brasil contra o Crime Organizado, dotado de R$ 1 bilhão distribuídos em quatro eixos: asfixia financeira das organizações criminosas, transformação de 138 presídios estaduais em unidades de segurança máxima, investigação de homicídios e combate ao tráfico de armas.

Na cerimônia de lançamento, Lula afirmou que combater o crime organizado de verdade exigiria ‘entregar alguns nossos que estão morando em Miami’. A declaração, segundo ele, teria integrado conversa recente com o presidente dos EUA, Donald Trump.

A frase condensa três movimentos simultâneos: uma concepção sofisticada do crime organizado, uma estratégia para enfrentá-lo e um posicionamento político claro diante de Washington e da ultradireita brasileira. Ao falar em ‘crime organizado de verdade’, Lula sinaliza adesão à tese de que as organizações criminosas funcionam como empresas transnacionais — com estruturas financeiras, paraísos fiscais e operações em múltiplos países — e não apenas como gangues de rua.

Conforme analisou a Carta Capital, a iniciativa representa uma inflexão histórica do campo progressista, que historicamente negligenciou a segurança pública como pauta estrutural. O programa é mais um capítulo de um movimento iniciado em 2025, com a proposta da PEC da Segurança Pública, e continuado com operações da Polícia Federal contra a cúpula financeira do Primeiro Comando da Capital — como Carbono Oculto, Quasar e Tanque — além do projeto de lei Antifacção.

A lógica do ‘seguir o dinheiro’ está no centro do programa. No topo das economias ilícitas, opera uma minoria que movimenta bilhões por meio de bancos digitais, fintechs, aplicativos de apostas, mercado imobiliário, grilagem de terras, criptomoedas, mineração ilegal, tráfico de armas e cigarros, entre outros.

São gestores que dominam mecanismos de lavagem de dinheiro, circulam por paraísos fiscais e, em sua maioria, são brancos, com formação superior e origem nas classes médias e altas — bem distantes do perfil que superlota o sistema carcerário. Na base dessa pirâmide, estão milhares de pessoas negras, pobres e periféricas que compõem a mão de obra mais barata e descartável das economias ilícitas.

São elas que aparecem de forma mais visível no cenário da violência urbana, que morrem mais cedo e que enchem as cadeias — paradoxalmente, as menos importantes para a lucratividade dos negócios ilegais. Apenas na região metropolitana do Rio de Janeiro, cerca de 4 milhões de pessoas vivem em áreas controladas por facções ou milícias, o equivalente a 35% da população local.

O recado político do programa é duplo. Para Trump, Lula reforça que a chamada ‘Doutrina Monroe’ — que usa o ‘narcoterrorismo’ como justificativa para pressão política e intervenção militar na América Latina — não será aceita, e que o combate ao crime organizado só interessa ao país em bases de cooperação soberana, alinhando-se à posição da presidenta do México, Claudia Sheinbaum.

Para o bolsonarismo, o governo sinaliza que resistirá às pressões para incluir o PCC e o CV na lista de organizações narcoterroristas elaborada por Washington. O vocabulário ideológico que abre portas para soluções militarizadas e politicamente convenientes à extrema direita é recusado.

A implementação de parte do programa depende da colaboração dos governadores, a maioria controlada pela direita ou ultradireita. Uma eventual resistência de nomes como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, ou o de Goiás, Ronaldo Caiado, à transformação dos presídios estaduais em unidades de segurança máxima dará ao governo federal munição para questionar publicamente a conivência ou a omissão dessas gestões diante do crime organizado.

Os acertos do programa convivem com lacunas relevantes. O modelo de aprisionamento em massa — com quase 1 milhão de presos — permanece intocado, e transformar presídios em unidades de segurança máxima não altera a lógica penal que frequentemente fortalece as próprias organizações que pretende combater.

Também não constam no anúncio medidas de desencarceramento para presos primários condenados por crimes de baixa periculosidade, programas robustos de reinserção social, reurbanização de favelas ou estímulo à economia formal em territórios dominados por facções e milícias. Essas políticas integraram o Pronasci, lançado no primeiro mandato de Lula, em 2007, e foram cogitadas para o atual governo.

A abertura de linhas de crédito do BNDES no valor de R$ 10 bilhões para investimentos estaduais em segurança pública tampouco garante, por si só, qualquer mudança nas políticas militarizadas e ineficientes das polícias estaduais. O impulso do governo combina, segundo a análise da Carta Capital, compreensão real do problema e necessidade eleitoral de disputar o terreno da segurança pública com a ultradireita em 2026.

Pesquisas recentes indicam que 19% dos brasileiros consideram o crime organizado o maior problema nacional — atrás apenas da saúde, com 21%. Outros 61,4% reconhecem que as facções influenciam as regras de convivência nos bairros onde vivem.


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