A corrida pela industrialização do espaço acaba de ganhar um capítulo inédito. A Varda Space Industries, startup sediada em El Segundo, na Califórnia, anunciou um acordo comercial com a farmacêutica United Therapeutics para testar a produção de medicamentos em órbita terrestre.
A ideia central é simples na teoria e revolucionária na prática: lançar versões dos medicamentos da United Therapeutics ao espaço, onde a ausência de gravidade permite que substâncias químicas formem cristais com arranjos atômicos impossíveis de replicar na Terra. Esses novos polimorfos — como são chamadas as diferentes formas cristalinas de uma mesma molécula — podem apresentar maior estabilidade, melhor absorção pelo organismo ou outras propriedades farmacológicas superiores.
Segundo o MIT Technology Review, os termos financeiros do acordo não foram divulgados. As empresas também não revelaram quais medicamentos específicos serão estudados.
O que se sabe é que a United Therapeutics está pagando à Varda para identificar novas formas cristalinas de seus fármacos, com o objetivo de melhorar suas propriedades terapêuticas. A CEO da United Therapeutics, Martine Rothblatt — que tem histórico no setor de satélites de telecomunicações e construiu um império farmacêutico multibilionário a partir de tratamentos para hipertensão arterial pulmonar — confirmou o investimento.
‘Primeiro temos de fazer o experimento para descobrir quais polimorfos dessas moléculas podem ser produzidos sem a influência da gravidade. Depois, uma vez que tivermos esses polimorfos, vamos testá-los’, afirmou Rothblatt.
A Varda foi fundada em 2021 por Delian Asparouhov e Will Bruey, ex-engenheiro de aviônica da SpaceX, que hoje comanda a empresa como CEO. A aposta dos fundadores é que a manufatura espacial se tornará viável à medida que os lançamentos de foguetes se tornem mais frequentes e baratos.
Para chegar ao espaço, a Varda compra espaço nos foguetes Falcon 9 reutilizáveis da SpaceX. A startup envia pequenos satélites com uma cápsula acoplada, capaz de realizar experimentos em microgravidade e retornar à Terra de forma autônoma, entrando na atmosfera a cerca de Mach 25 antes de pousar de paraquedas no interior da Austrália.
Desde 2023, a empresa já colocou seis cápsulas em órbita. Metade foi dedicada a pesquisas militares e a outra metade carregou experimentos farmacêuticos. Essa dupla utilidade tecnológica é assumida abertamente pela empresa como parte da realidade do setor espacial.
A viabilidade econômica do projeto repousa sobre uma peculiaridade do mercado farmacêutico: medicamentos são, por quilograma, alguns dos produtos mais valiosos do planeta. O custo atual para lançar um quilograma de carga ao espaço gira em torno de 7.000 dólares, o que inviabiliza enviar matérias-primas comuns. Mas um único quilograma do medicamento para obesidade Ozempic, por exemplo, vale mais de 100 milhões de dólares no varejo, tornando a equação economicamente plausível para a indústria farmacêutica.
Há precedente científico para a aposta. Em 2017, a gigante farmacêutica Merck enviou amostras de seu imunoterápico contra o câncer Keytruda à Estação Espacial Internacional, onde o medicamento formou cristais de tamanho uniforme. O experimento abriu pistas para reformular o fármaco como injeção subcutânea em vez de infusão intravenosa, embora a linha entre descoberta orbital e produto comercial ainda seja longa e incerta.
Michael Reilly, diretor de estratégia da Varda, reconhece a distância entre o estágio atual e a manufatura espacial plena. ‘Temos aprendido com o espaço há anos, mas não consigo nomear nada que tenha sido fabricado no espaço, trazido de volta à Terra e vendido. Isso seria uma primeira vez — ou será uma primeira vez’, disse Reilly. A previsão é que os medicamentos da United Therapeutics sejam lançados ao espaço no início do próximo ano.
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