A implosão calculada de Netanyahu: por que a direita de Israel devora a si mesma

A arquitetura de poder de Benjamin Netanyahu em Israel não foi derrubada; ela implodiu por dentro. A manobra para dissolver o parlamento não é um ato de força, mas a admissão calculada de que a coalizão de extrema-direita se tornou um monstro ingovernável, incapaz de sobreviver às próprias contradições.

A proposta para desmontar o Knesset, o parlamento israelense, e antecipar as eleições partiu da própria base governista, um movimento tático para controlar a narrativa de um colapso inevitável. Reportagem da imprensa brasileira aponta que a iniciativa busca antecipar uma moção de dissolução que já era preparada pela oposição, transformando a queda em uma retirada estratégica.

O estopim formal foi a revolta dos partidos ultraortodoxos, pilar fundamental do governo. A recusa do Knesset em aprovar uma lei para isentar em massa jovens religiosos do serviço militar obrigatório foi a fratura exposta, especialmente em um momento de guerra prolongada que exige cada vez mais soldados.

Essa demanda, no entanto, é apenas o sintoma de uma doença mais profunda. A atual administração, a mais à direita da história do país, foi construída sobre um pacto faustiano com fundamentalistas que cobram um preço cada vez mais alto em troca de lealdade, paralisando o Estado com sua agenda teocrática.

Para o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, a dissolução controlada é a menos pior das saídas. Acuado por uma popularidade em ruínas desde os ataques de 7 de outubro e pressionado pela comunidade internacional devido à condução da guerra em Gaza, antecipar as eleições é uma tentativa de resetar o cenário político sob seus próprios termos, antes que seus aliados o abandonem ou a oposição o derrube.

O cálculo é sobreviver. Enfrentar uma nova eleição, mesmo em desvantagem, é preferível a ser visto como um líder fraco que perdeu o controle de sua própria base e foi ejetado do poder por uma rebelião interna ou por um voto de desconfiança.

Do outro lado, a oposição se articula, mas enfrenta seus próprios demônios estruturais. Figuras como o ex-primeiro-ministro Yair Lapid e o também ex-premiê Naftali Bennett sinalizam uma frente unida, mas a matemática para formar um governo alternativo continua sendo o maior desafio da política israelense.

Pesquisas recentes de intenção de voto indicam que o bloco anti-Netanyahu poderia, em tese, conquistar a maioria dos assentos. O problema crônico, no entanto, reside na recusa histórica de parte dessa oposição em formar uma coalizão com os partidos que representam a minoria árabe-israelense, tornando a construção de uma maioria estável uma tarefa quase impossível.

Essa crise interna tem consequências geopolíticas imediatas. Uma campanha eleitoral em Israel tende a paralisar qualquer negociação séria para um cessar-fogo em Gaza, ao mesmo tempo que pode empurrar Netanyahu para posições ainda mais radicais na tentativa de energizar seu eleitorado de extrema-direita.

Para Washington, a implosão do governo pode ser vista como um alívio e uma oportunidade. A relação entre a Casa Branca de Joe Biden e o gabinete de Netanyahu atingiu seu ponto mais baixo, e uma nova eleição abre a possibilidade de um novo interlocutor em Tel Aviv, potencialmente mais alinhado aos interesses estratégicos dos EUA na região.

O que se desenrola em Israel não é apenas mais uma crise de governo em um país acostumado à instabilidade política. É o esgotamento de um projeto de poder personalista que, para se perpetuar, radicalizou o país, normalizou o extremismo e, agora, consome seus próprios criadores.

A última cartada de Netanyahu não é sobre ideologia ou sobre o futuro de Israel. É sobre a sobrevivência de um líder que vê o poder se esvair e prefere incendiar o tabuleiro a aceitar o fim do seu reinado, mesmo que isso arraste o país para mais um ciclo de incerteza e paralisia.


Leia também: Netanyahu provoca colapso de apoio a Israel entre jovens dos EUA, revela Axios


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