A entrada da Apple no mercado de smartphones dobráveis pode reorganizar um segmento que a Samsung tenta consolidar há quase uma década sem conseguir transformá-lo em fenômeno de massa. Uma pesquisa divulgada pela CNET indica que o futuro iPhone dobrável, apelidado de iPhone Ultra, tem potencial de superar rapidamente os volumes que as concorrentes sul-coreanas construíram ao longo de anos.
O levantamento mostra que 14% dos usuários de iPhone nos Estados Unidos apontam um novo conceito de design como principal motivo para trocar de aparelho. O número parece modesto à primeira vista, mas ganha outra dimensão quando aplicado à gigantesca base instalada da fabricante californiana.
Apenas em 2025, a Apple comercializou cerca de 247,4 milhões de unidades do iPhone em todo o mundo, segundo dados reproduzidos pelo portal Canaltech. Esse universo gigantesco transforma qualquer fatia percentual em milhões de compradores em potencial para o novo formato.
A companhia também demonstrou fôlego financeiro recente compatível com o lançamento de um produto premium de alto risco. Somente no início de 2026, a Apple registrou quase US$ 57 bilhões em faturamento apenas com a linha iPhone, mantendo o aparelho como espinha dorsal do seu negócio global.
O preço estimado do dobrável, acima de US$ 2.000, deve funcionar como filtro natural e limitar a adoção em massa do produto. Ainda assim, o aparelho desponta como uma oportunidade estratégica para a Apple consolidar posição no segmento de ultra luxo da telefonia móvel.
O dado mais revelador da pesquisa aparece na comparação entre marcas, em um momento de relativa estagnação do ciclo de inovação dos smartphones. Entre usuários de diferentes fabricantes, apenas 13% afirmam se sentir atraídos por designs inovadores, percentual praticamente idêntico ao registrado entre clientes da Apple.
A diferença decisiva está na escala. Enquanto Samsung, Motorola, Xiaomi, Huawei e Honor disputam um público fragmentado, a base fiel da Apple permite que mesmo uma parcela pequena de interessados represente um contingente capaz de redefinir o tamanho do mercado de dobráveis quase da noite para o dia.
Outro ponto que chama atenção no levantamento é o desgaste do discurso da inteligência artificial como motor de upgrade. Recursos de IA generativa, vendidos como revolução pelas grandes fabricantes nos últimos dois anos, não aparecem como motivador principal de troca para a maioria dos consumidores ouvidos.
Esse cenário ajuda a explicar por que a Apple decidiu apostar fichas pesadas no formato dobrável depois de anos observando o segmento à distância. A empresa, conhecida por entrar tarde em mercados emergentes e dominá-los pela força de marca, parece repetir a estratégia clássica de chegar quando o terreno já está tecnicamente maduro.
A Samsung, pioneira do segmento desde 2019 com as linhas Galaxy Fold e Galaxy Z Flip, enfrentará agora o desafio de defender posição diante de uma rival com poder de fogo logístico, marketing global e ecossistema integrado superior. A Motorola, que recentemente lançou seu primeiro modelo Fold no Brasil ao lado da linha Razr 60, também tenta ganhar espaço antes da chegada da Apple.
O movimento da fabricante norte-americana ocorre num contexto em que a indústria global de smartphones busca novos vetores de crescimento diante da saturação do formato tradicional em barra. Para o setor, a chegada do iPhone dobrável pode finalmente legitimar comercialmente uma categoria que, apesar do entusiasmo técnico, jamais ultrapassou a marca de produto de nicho.
Resta saber se a aposta confirmará as projeções otimistas das pesquisas de intenção ou se o preço elevado e a maturidade ainda parcial da tecnologia de telas flexíveis irão conter o impulso inicial. O lançamento, ainda sem data oficial confirmada pela Apple, é aguardado pelo mercado como o próximo grande teste do poder de transformação comercial da marca da maçã.
📨 Inscreva-se na Newsletter de O Cafezinho
Receba nossas análises e as principais notícias diárias do Brasil e do Sul Global.