Arqueólogos revelam 260 monumentos funerários no Saara ameaçados pela corrida do ouro

Dunas do deserto do Saara, onde 260 monumentos antigos foram encontrados. (Foto: olhardigital.com.br)

Uma equipe internacional de arqueólogos descobriu 260 estruturas funerárias até então desconhecidas no Deserto Oriental, região do Saara situada entre o rio Nilo e o Mar Vermelho, no leste do Sudão. O achado foi possível sem expedições terrestres iniciais: os pesquisadores utilizaram um extenso banco de imagens de satélite para mapear a área e publicaram os resultados na revista científica African Archaeological Review.

Os monumentos são estimados em 4.500 a 6.500 anos de idade e estão associados aos chamados Atbai Enclosure Burials, tipologia funerária já conhecida pelos estudiosos da região. As estruturas são descritas como sepultamentos circulares coletivos, alguns atingindo até 80 metros de diâmetro.

Em geral, cada formação apresenta muros externos baixos e um único indivíduo enterrado no centro do círculo. No interior, os pesquisadores identificaram restos mortais humanos e de animais domésticos, incluindo bovinos, ovelhas e cabras.

A associação com os Atbai Enclosure Burials se baseia nas semelhanças arquitetônicas com estruturas escavadas ao longo do último século. A classificação foi feita sem análise direta em campo dos novos sítios.

A localização geográfica dos monumentos reforça a hipótese de que os indivíduos ali enterrados pertenciam a grupos de pastores nômades. A maioria das estruturas está situada próxima a antigos pontos de água, leitos secos de rios e oásis — rotas naturais para quem conduzia rebanhos pelo deserto.

Os pesquisadores associam essa cultura ao último período conhecido como “Saara Verde”, fase em que a região era consideravelmente mais úmida e coberta por vegetação. O Saara alterna ciclos entre desertificação e savana aproximadamente a cada 21 mil anos, e o último período úmido ocorreu entre cerca de 15 mil e 5 mil anos atrás — janela temporal que coincide com o florescimento dessa civilização de pastores, conforme detalhado pelo Olhar Digital.

Com o avanço progressivo da aridez e das dunas, o grupo aparentemente desapareceu da região. O estudo cita ainda o sítio de Gobero, no Deserto de Ténéré, onde arqueólogos identificaram cerca de 200 esqueletos humanos e milhares de artefatos, também abandonado após a intensificação da seca há aproximadamente 5 mil anos.

O cenário atual, porém, adiciona uma ameaça urgente ao patrimônio recém-mapeado. Os autores alertam que a região vive uma nova corrida do ouro, atraindo pessoas, investimentos e grupos armados para áreas antes pouco ocupadas do deserto sudanês.

Ao menos 12 das 260 estruturas identificadas já sofreram danos concretos provocados por atividades de mineração e vandalismo. Os arqueólogos advertem que o avanço da exploração aurífera pode ampliar a destruição desses sítios antes que qualquer análise de campo mais detalhada seja realizada.

A corrida mineral coloca em risco não apenas os monumentos físicos, mas também o conhecimento sobre uma civilização inteira que habitou o Saara quando ele ainda era verde.


Leia também: Satélites revelam 260 túmulos coletivos milenares escondidos no deserto do Saara


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