Pesquisadores do Instituto de Ciência e Tecnologia de Okinawa (OIST), no Japão, identificaram uma poderosa tempestade solar que atingiu a Terra entre o inverno de 1200 e a primavera de 1201, durante a Idade Média. A descoberta foi possível graças à combinação de medições ultraprecisas de carbono-14 em árvores asunaro soterradas no norte do arquipélago japonês com relatos históricos de auroras vermelhas avistadas nos céus da Ásia naquela época.
O estudo, publicado nos Proceedings of the Japan Academy, Series B, foi divulgado pelo portal ScienceDaily e revela que o Sol atravessava um período de atividade excepcionalmente intensa naquele momento. Os ciclos solares, que hoje duram cerca de onze anos, eram comprimidos para apenas sete ou oito anos, indicando uma estrela muito mais agitada do que a observada atualmente.
A professora Hiroko Miyahara, da Unidade de Ambiente Solar-Terrestre e Clima do OIST, explicou que estudos anteriores sobre eventos solares de prótons históricos concentravam-se apenas em ocorrências extremamente raras e violentas. A nova metodologia permite detectar eventos subextremos, que correspondem a 10% ou 30% do tamanho dos casos mais devastadores, mas que ainda assim representam riscos significativos para tripulações espaciais e satélites.
Uma das pistas decisivas para a investigação veio do Meigetsuki, diário do poeta e cortesão japonês Fujiwara no Teika, que viveu entre 1162 e 1241. Em fevereiro de 1204, ele registrou ter avistado ‘luzes vermelhas no céu ao norte de Quioto’, um fenômeno raríssimo naquela latitude e que serviu como ponto de partida para a equipe científica investigar o período correspondente.
Os pesquisadores então analisaram amostras de madeira soterrada de asunaro coletadas na província de Aomori, no extremo norte japonês. Foram detectados picos de carbono-14 que apontaram para um evento solar de prótons subextremo, datado com precisão entre o final do ano 1200 e o início de 1201, com confirmação cruzada em registros chineses que também descreveram auroras vermelhas visíveis em latitudes anormalmente baixas no mesmo período.
Riscos para missões lunares e a corrida espacial
A relevância da descoberta vai muito além da curiosidade histórica. Erupções solares e ejeções de massa coronal podem lançar partículas carregadas pelo espaço a velocidades que chegam a 90% da velocidade da luz, criando ameaças letais para astronautas fora da proteção do campo magnético terrestre.
Um precedente alarmante ocorreu em 1972, quando diversos eventos de prótons solares irromperam entre as missões Apollo 16 e Apollo 17. Caso houvesse astronautas em solo lunar naquele intervalo, eles teriam sido expostos a níveis fatais de radiação, alerta que ganha contornos urgentes diante dos planos chineses, russos e americanos de retorno à Lua e exploração de Marte nas próximas décadas.
O campo magnético da Terra bloqueia a maior parte das partículas energéticas liberadas durante esses eventos. Próximo aos polos, porém, as linhas magnéticas se abrem para o espaço e permitem a entrada de partículas na atmosfera. Quando essas partículas colidem com os gases atmosféricos, criam compostos de carbono-14 que se espalham globalmente e ficam aprisionados em organismos vivos, formando um registro natural da atividade solar.
Década de aprimoramento técnico
A equipe japonesa levou mais de dez anos refinando a técnica ultraprecisa de medição capaz de detectar flutuações ínfimas de carbono-14, muito menores do que as identificáveis pelos métodos convencionais. Esse rigor metodológico foi combinado com a dendroclimatologia, técnica de datação baseada em padrões de crescimento dos anéis das árvores associados ao clima regional.
Miyahara destacou que a análise isolada de carbono-14 não é suficiente, sendo essenciais os registros históricos e outros métodos científicos para reconstruir o comportamento solar passado. A pesquisadora observou que algumas auroras prolongadas em baixas latitudes registradas na literatura medieval parecem ter ocorrido próximas ao mínimo dos ciclos solares reconstruídos, um achado inesperado que abre novas frentes de investigação.
O trabalho preenche lacunas importantes na história da atividade solar e oferece subsídios para que agências espaciais e governos compreendam melhor as condições em que tempestades extremas se tornam mais prováveis. Em uma era em que economia, comunicações, navegação por satélite e redes elétricas dependem profundamente da infraestrutura espacial, antecipar o comportamento do Sol deixou de ser apenas uma curiosidade astronômica para se tornar questão estratégica de soberania tecnológica.
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