Por Priscila Miranda Rosário
A distribuição sempre foi tratada como o gargalo do cinema. O lugar onde alguns filmes passam e outros não. Durante muito tempo, isso fez sentido. Hoje, não faz mais.
Porque os filmes existem. Eles estão aí. As plataformas ampliaram brutalmente a oferta. Nunca se produziu tanto, nunca se teve tanto disponível. Então o problema não é mais chegar.
O problema é existir.
E existir, hoje, é outra coisa.
Especialmente para o cinema independente, que nunca foi distribuído da mesma forma que o cinema americano, mainstream, empurrado por máquinas de mídia. Esse cinema sempre precisou de validação. E essa validação, historicamente, vem dos festivais.
Os festivais são, em teoria, o lugar da descoberta. O lugar que revela o novo, que aponta caminhos, que legitima.
Mas os festivais também têm seus limites.
Eles têm seus interesses, suas zonas de conforto, suas agendas. E, no fim das contas, tudo passa por economia. Por decisão. Por escolha.
Porque ninguém chega a um filme só pelo tema. Existe todo um conjunto de sinais que fazem esse filme aparecer como escolha possível — quem dirige, quem atua, o que já foi dito sobre ele, onde ele circulou. O reconhecimento vem antes.
Existe uma cinefilia atenta ao novo, ao diferente — mas ela é um recorte. Para além disso, existe um público que precisa ser conquistado. E esse trabalho não é automático.
E aí entra uma mudança que pouca gente quer encarar de frente.
O streaming ampliou a oferta, sim. Mas ele também organizou essa oferta.
Ele deixou muito claro que existe um tipo de conteúdo que é feito para estar ali.
E, ao mesmo tempo, reforçou outra coisa: para você sair de casa e ir ao cinema, precisa ser por um motivo.
Ir ao cinema hoje não é mais um gesto automático.
É quase um ato de posição.
É quase como ir a uma manifestação.
Você se desloca, você escolhe, você decide estar ali.
E essa decisão passa, inevitavelmente, por identificação, por urgência, por representatividade.
Então a distribuição hoje não é criar desejo.
E também não é simplesmente escolher um filme.
A distribuição hoje é ter posicionamento.
É entender o que você coloca em circulação e por quê.
É assumir publicamente quais histórias você considera que precisam ocupar espaço.
Porque nem todo filme precisa — e nem deveria — estar no cinema.
E isso o próprio streaming já deixou evidente.
Ao mesmo tempo, existe algo fundamental: a sala de cinema ainda é um espaço mais democrático.
Porque ali não existe um executivo de streaming decidindo sozinho o que vai aparecer com mais destaque, baseado apenas em lógica comercial e algoritmo.
Graças às salas independentes — e isso é muito importante dizer — ainda existe um espaço onde certos filmes podem existir.
Filmes que, muitas vezes, não teriam lugar em nenhum outro circuito.
E é exatamente nesse ponto que entra Fanon, de Jean-Claude Barny.
Um filme que eu considero um filme missão.
Fanon não é qualquer personagem. Ele é um dos maiores intelectuais do século XX. Psiquiatra, filósofo, pensador central do decolonialismo. Um homem que morreu aos 36 anos e, ainda assim, produziu uma obra que atravessa o século.
Isso não é simples de transformar em cinema.
E, ainda assim, o filme consegue.
É uma obra de duas horas e vinte minutos que consegue fazer algo raro: dar forma cinematográfica a um pensamento complexo sem esvaziá-lo. Não é um filme frio. É um filme atravessado por emoção, por conflito, por vida.
E, justamente por isso, ele não entrou nos grandes festivais europeus.
Isso precisa ser dito.
Porque ainda existem temas que não circulam com facilidade.
E o colonialismo é um deles.
A Europa sabe o que fez. E não gosta de olhar para isso.
Então o filme foi recusado.
Mas foi lançado.
Na França, por uma distribuidora independente, uma mulher tunisiana, que entendeu a importância desse projeto. Ela fez o que a gente faz: construiu o caminho.
Pouca mídia.
Pouco espaço.
78 salas.
E aí o público respondeu.
O filme cresceu. Foi de 78 para 300 salas.
Eu estava lá. Eu vi.
Vi sessões cheias. Vi um público diverso. Vi, inclusive, salas majoritariamente de franceses brancos profundamente impactados pelo filme.
Isso desmonta uma ideia muito confortável: de que certos filmes falam só para determinados públicos.
Não.
Quando o filme é forte, ele atravessa.
Foi nesse momento que eu entendi que Fanon precisava estar no Brasil.
E, para mim, isso não é só uma decisão profissional.
Eu sou bisneta de um homem que nasceu escravizado.
Meu bisavô saiu de Minas Gerais e chegou ao Rio de Janeiro já liberto, com a avó dele.
Essa história não é distante de mim.
Ela me atravessa.
E Fanon atravessa essa história.
Esse filme foi distribuído em pouquíssimos lugares. França, Canadá, territórios ligados à origem do diretor. E só.
E, ainda assim, quando Jean-Claude Barny fez o primeiro post sobre o filme, brasileiros começaram a aparecer.
A perguntar.
A querer ver.
Existe uma percepção clara: o Brasil é um lugar para esse filme existir.
Mas existir não é automático.
A gente vai repetir aqui o que já aconteceu lá: pouco espaço, pouca mídia, necessidade de construir tudo.
E é por isso que esse não é um lançamento qualquer.
É um chamado.
A comunidade cinéfila precisa estar.
A comunidade progressista precisa estar.
A comunidade preta precisa estar.
Porque, no fim, a pergunta é simples:
quem nos representa?
Distribuir Fanon não é só lançar um filme.
É ter posicionamento.
É afirmar o que precisa existir.
É disputar espaço.
É disputar narrativa.
É disputar memória.
E, no fim, é sobre se ver representado na tela.
Nossos heróis.
FANON – PROGRAMAÇÃO
Região Sudeste
São Paulo
- Cine SESC: 17h
- IMS Paulista: 15h30, 15h40, 19h30, 19h40 e 21h30
- Cinesystem Belas Artes: 15h40
- CCSP (Sala Lima Barreto): 17h00 (Exceto dia 15/05, que será às 14h00)
- Cine Sala FAAP: 20h30
- Espaço Petrobras de Cinema: 20h50
- Casa Belas Artes (Ribeirão Preto): 19h00
Rio de Janeiro
- Estação Net Rio: 14h30 e 16h25 (Sex/Qua) | 16h00 e 21h00 (Sáb/Dom)
- Cinecarioca José Wilker: 20h10
- Estação Net Gávea: Sáb, Seg e Qua (Consulte horários específicos)
Minas Gerais
- Cineart Ponteio (BH): 16h30
- IMS Poços: 19h
Região Sul
- Paradigma Cine Arte (Florianópolis): 14h00
- Cine Multi (Florianópolis): 21h00
- Cineplex Batel (Curitiba): 14h00 e 20h
- Cinema Ulisses Geremias (Caxias do Sul): 15h30
Região Nordeste
- Cine Glauber Rocha (Salvador): 19h20
- Saladearte UFBA (Salvador): 19h50
Região Norte
- Cinex Araguaína (TO): 19h35
- Cinex Gurupi (TO): 19h35
Região Centro-Oeste
- Cine Aurum Oscar Niemeyer (Goiânia): 19h15
- Mostra de Goiânia: 19h e 19h15