Um escrivão da Polícia Civil de São Paulo, preso na terça-feira sob acusação de integrar um esquema de extorsão, chegou a sugerir à própria vítima que cometesse um roubo de carga para conseguir dinheiro e quitar a ‘dívida’ cobrada pelo grupo de policiais. As conversas, obtidas pela Corregedoria, mostram o agente oferecendo até rastreador para uso em uma carreta, prática conhecida no submundo como ‘puxada’.
O escrivão João Ruper Rodrigues, lotado no 1º Distrito Policial de Taboão da Serra, foi detido durante operação da Corregedoria da Polícia Civil paulista. Também foram presos os investigadores Tiago Henrique Sousa Carvalho, o ‘Japa’, Roberto Castelano, o ‘Bateria’, e o agente policial Diogo Prieto Júnior, conhecido como ‘Careca’.
Os quatro são investigados por extorsão qualificada e associação criminosa armada, segundo apurou o portal Metrópoles. As defesas dos acusados ainda não foram localizadas pela imprensa.
O ‘trampo’ oferecido com rastreador
A vítima do esquema era Fábio Oliveira Silva, preso em 2004 por envolvimento no sequestro da mãe do ex-jogador Robinho. Segundo a investigação, o grupo de policiais já havia recebido R$ 303 mil de Eder Wilson de Jesus Silva, primo de Fábio conhecido como ‘Véio’, em entrega feita na madrugada de 3 de abril, em Barueri.
Pressionado pela continuidade dos pagamentos, João Ruper teria passado a sugerir uma alternativa criminosa para que a vítima ‘levantasse’ o restante. ‘Enquanto isso, a gente faz o trampo, mano. Eu tô com o rastreador na mão pra entregar pra vocês, mano. A gente coloca o rastreador na carreta aí, mano’, diz trecho de áudio atribuído ao escrivão.
A prática descrita é conhecida no submundo policial como ‘puxada’. Rastreadores são instalados em carretas no momento em que drogas são introduzidas nas cargas legalizadas, permitindo que policiais corruptos simulem flagrantes em suas áreas de atuação e desviem parte do material ilícito, ou o substituam por droga de menor pureza.
‘É dois palito, cara’
Nas mensagens, João reforça que o esquema seria executado em outra delegacia, já que a Dise de Carapicuíba — onde Fábio havia sido mantido em cárcere — ‘já caiu uma vez’. ‘A gente faz esse trampo em outro lugar, com outra galera minha. A gente faz em outra delegacia’, diz outra parte do áudio atribuído ao policial.
O escrivão também tentava convencer a vítima de que o esquema seria rápido e sem risco de prisão. ‘A gente levanta essa moeda rapidinho, caralho. Rapidinho, mano. É dois palito, cara’, afirma em outro trecho, sugerindo ainda que o grupo poderia repetir a operação várias vezes.
A cobrança total inicialmente estipulada pelos policiais era de R$ 1 milhão, dividida em quatro parcelas conforme cronograma manuscrito enviado à vítima. Descontados os R$ 303 mil já pagos, restavam uma parcela de R$ 197 mil e duas finais de R$ 250 mil cada, conforme apurou a investigação.
Delegacia transformada em cativeiro
O esquema teve início em 2 de abril, quando cerca de oito homens se identificando como policiais civis invadiram a casa de Fábio em um condomínio no Jardim Ângela, zona sul da capital paulista. A vítima relatou que foi colocada em uma viatura e levada à Dise de Carapicuíba, após ameaças de que seria forjado um flagrante de tráfico de drogas caso não colaborasse.
Na unidade policial, Fábio teria permanecido trancado por cerca de dez horas em uma sala no andar superior do prédio. Ele só foi liberado depois que o primo conseguiu reunir os R$ 303 mil exigidos como primeira parcela do pagamento aos policiais.
Posteriormente, segundo depoimentos das vítimas, o investigador ‘Japa’ teria negociado a redução do valor total para R$ 500 mil. Foi nesse intervalo que Fábio procurou a Corregedoria da Polícia Civil e formalizou a denúncia que levou às prisões, em investigação que corre sob sigilo.
📨 Inscreva-se na Newsletter de O Cafezinho
Receba nossas análises e as principais notícias diárias do Brasil e do Sul Global.