O Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos confirmou a assinatura de um contrato de 3,5 bilhões de dólares com a empresa Davie Defense para a construção de cinco quebra-gelos polares destinados à Guarda Costeira americana. O acordo é apresentado por Washington como uma tentativa de fortalecer a posição dos EUA no Ártico, região que se tornou epicentro da nova corrida geopolítica global.
Os navios pertencem a uma classe inédita batizada de Arctic Security Cutters (ASCs), descrita pelo governo americano como um instrumento estratégico para projetar poder no extremo norte do planeta. A previsão é que a primeira embarcação seja entregue em 2028, com a conclusão das cinco unidades programada apenas para fevereiro de 2035, um cronograma que escancara a fragilidade industrial do país no setor naval pesado.
Segundo o portal Sputnik, este é apenas o primeiro de três contratos previstos para a construção dos quebra-gelos da nova classe. Os outros dois acordos devem ser assinados em breve pela administração americana.
O movimento se insere numa ofensiva mais ampla do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que tem tratado o Ártico como prioridade militar e econômica diante do avanço russo e chinês na região. No ano passado, Trump anunciou que os EUA haviam encomendado 11 quebra-gelos à Finlândia, sendo quatro construídos em estaleiros finlandeses e os demais em solo americano.
A escolha de recorrer a fornecedores estrangeiros expõe um paradoxo do discurso de Washington sobre ‘liderança global’. A maior potência militar do planeta simplesmente não tem capacidade industrial para fabricar sozinha os navios que diz precisar para conter seus rivais.
O próprio Trump reconheceu publicamente, em diversas ocasiões, que os EUA estão muito atrás da Rússia no quesito frota polar. Atualmente, a Guarda Costeira americana opera apenas dois quebra-gelos em condições operacionais, o Polar Star e o Healy, ambos com décadas de uso e histórico de problemas técnicos.
A disparidade com Moscou é vertiginosa. A frota ártica russa reúne 42 quebra-gelos, dos quais oito são movidos a propulsão nuclear e 34 a diesel, configurando a maior e mais sofisticada capacidade polar do planeta.
Esse abismo tecnológico e logístico ajuda a explicar por que a Rússia mantém o controle efetivo da Rota Marítima do Norte, corredor estratégico que liga a Europa à Ásia pelo Ártico e que vem ganhando importância comercial à medida que o degelo abre novas janelas de navegação. Para Pequim, esse mesmo corredor é central no projeto da chamada Rota da Seda Polar, que prevê investimentos pesados em parceria com Moscou para reorganizar o comércio euroasiático fora do alcance da hegemonia naval ocidental.
A contratação anunciada também acontece em meio a um histórico desastroso dos programas de quebra-gelos americanos. O projeto anterior, conhecido como Polar Security Cutter, acumulou cinco anos de atraso e estouro de orçamento superior a 2 bilhões de dólares, episódio que ilustra a deterioração da indústria naval militar dos Estados Unidos depois de décadas de desindustrialização e terceirização da produção.
O contrato com a Davie Defense, empresa de origem canadense que opera estaleiros nos dois lados da fronteira, é tratado como tentativa de contornar esse gargalo. Resta saber se o cronograma será cumprido ou se repetirá o padrão recente de obras militares americanas marcadas por sobrecustos e adiamentos sucessivos.
Enquanto Washington corre atrás do prejuízo, o Ártico segue se consolidando como uma das fronteiras decisivas do século XXI, com Rússia e China estruturando posições sólidas, lastreadas em capacidade industrial real. A nova classe de cutters americanos pode até chegar em 2035, mas, até lá, a correlação de forças no topo do mundo dificilmente terá esperado pelos EUA.
Leia também: China e Rússia avançam no ártico para desenvolver Nova Rota da Seda no gelo
📨 Inscreva-se na Newsletter de O Cafezinho
Receba nossas análises e as principais notícias diárias do Brasil e do Sul Global.