Encontro entre Xi Jinping e Donald Trump reúne empresários globais e recoloca comércio, Taiwan e Irã no centro da disputa geopolítica
O tapete vermelho desceu os degraus do Grande Salão do Povo, na Praça Tiananmen, e com ele veio o peso simbólico de um encontro que pode redesenhar as relações internacionais nas próximas décadas. Xi Jinping aguardava Donald Trump com a solenidade característica das grandes ocasiões diplomáticas chinesas — escoltado por uma formação em flecha de motocicletas da polícia, o presidente americano chegou cercado pela delegação mais aguardada dos últimos anos.
A cena, transmitida ao vivo pela televisão estatal chinesa, condensava muito mais do que protocolo. Era o reencontro de dois líderes que, nos últimos meses, protagonizaram uma das guerras comerciais mais intensas da história recente. Desta vez, porém, o clima era outro.
Do lado chinês, Xi trouxe figuras de peso: Cai Qi, seu homem de maior confiança e membro do seleto Comitê Permanente do Politburo — instância máxima do poder no país —, além do chanceler Wang Yi e do responsável pela área econômica, He Lifeng. Do lado americano, Trump apresentou o embaixador David Perdue, o secretário do Tesouro Scott Bessent, o secretário de Estado Marco Rubio e o secretário de Defesa Pete Hegseth.
Logo atrás das autoridades, na segunda fila, estavam alguns dos executivos mais influentes do planeta: Tim Cook, da Apple; Jensen Huang, da Nvidia; Elon Musk, da Tesla; e Jane Fraser, do Citigroup. A presença deles não era acidental — e Trump não perdeu a oportunidade de destacar isso.
Antes mesmo das conversações formais começarem, Xi Jinping estabeleceu o enquadramento que a China pretende dar à relação com os Estados Unidos. Em suas primeiras palavras, o líder chinês afirmou que os dois países precisam “criar um novo paradigma para as relações entre as principais potências”.
“Os dois países devem ser parceiros, não rivais. Devemos ajudar-nos mutuamente a ter sucesso… e encontrar a maneira certa para que as grandes potências coexistam”, disse Xi.
Trump, por sua vez, respondeu com o entusiasmo que lhe é peculiar. Chamou Xi de “um grande líder” e classificou o relacionamento bilateral como “fantástico”, garantindo que ficará “melhor do que nunca”. Em seguida, voltou sua atenção para a delegação empresarial que trouxe consigo.
“Temos os maiores empresários do mundo… e eles estão aqui hoje para prestar homenagem a vocês, à China”, declarou o presidente americano, antecipando o caráter essencialmente comercial que ele pretende imprimir à visita.
Esse enfoque econômico não surpreende analistas. Na véspera da cúpula, Trump havia revelado que seu “primeiro pedido” a Xi seria justamente a criação de um ambiente mais favorável para empresas americanas operarem na China. Entre os setores na fila de espera, a aviação se destaca: segundo o senador republicano Steve Daines, que esteve em Pequim na semana anterior à visita, a China não compra aeronaves da Boeing há nove anos. “Existe potencial para um grande negócio de aeronaves com a Boeing”, afirmou ele à CNBC.
Carne bovina e soja também constam na lista de produtos que os EUA esperam vender aos chineses como parte de eventuais acordos comerciais.
Ormuz, Taiwan e terras raras
Por trás dos sorrisos e dos elogios mútuos, a agenda real da cúpula carrega temas bem mais complexos. O Estreito de Ormuz é um deles. Washington quer que Pequim, maior comprador de petróleo iraniano do mundo, pressione Teerã a desbloquear a passagem marítima estratégica, vital para o escoamento de energia global. Trump confirmou que pretende discutir a crise com Xi durante as conversações.
Taiwan, por sua vez, representa o ponto de maior sensibilidade geopolítica. A China reivindica a ilha como parte de seu território e pode usar a cúpula para tentar arrancar concessões de Trump — seja uma redução nas vendas de armas a Taipei, seja uma suavização na postura diplomática americana em relação à independência taiwanesa.
William Yang, analista sênior do International Crisis Group, alertou que autoridades em Taiwan, no Japão e nas Filipinas acompanham o encontro com “ansiedade”. Ele ressaltou que a preocupação aumenta porque a atenção militar americana na Ásia diminuiu com o aprofundamento do conflito no Oriente Médio — o que, na percepção de alguns governos da região, pode enfraquecer a posição de barganha americana diante das demandas chinesas.
As terras raras compõem o terceiro elemento explosivo. A China introduziu controles de exportação sobre esses minerais estratégicos no ano passado, durante o auge da guerra comercial. Desde então, as restrições causam transtornos sérios para indústrias nos EUA, na Europa, na Índia e em outras regiões. “Precisamos continuar trabalhando para reduzir os riscos em certas áreas, certamente em terras raras, onde temos dependência da China”, reconheceu o senador Daines.
Do outro lado, os EUA mantêm sanções sobre refinarias chinesas que processam petróleo iraniano. A China, por sua vez, adotou regras que preveem penalidades severas a qualquer empresa — nacional ou estrangeira — que interrompa suas cadeias de suprimento. O equilíbrio entre essas tensões estruturais é o verdadeiro desafio que os dois líderes enfrentam.
Mídia estatal adota tom de otimismo
Quem acompanha a imprensa oficial chinesa sabe que o tom habitual em relação aos Estados Unidos oscila entre a crítica velada e o confronto aberto. Por isso, chamou atenção a postura adotada pelo Global Times — tabloide do Partido Comunista Chinês conhecido por sua linha nacionalista — na véspera da cúpula.
“A diplomacia dos chefes de Estado desempenha um papel insubstituível na orientação estratégica das relações China-EUA”, escreveu o veículo. “O futuro das relações China-EUA é promissor.”
A declaração revela a aposta que Pequim faz na cúpula: transformar o encontro em um ponto de inflexão narrativo, capaz de estabilizar uma relação que esteve à beira do colapso nos últimos anos.
Entre os temas que Trump prometeu levantar está o caso de Jimmy Lai, o magnata da mídia de Hong Kong preso após os protestos pró-democracia de 2019. A prisão de Lai tornou-se símbolo da repressão às liberdades civis no território e motivo de pressão constante por parte de organizações de direitos humanos e governos ocidentais.
A disposição de Trump em incluir o tema na pauta é, ao mesmo tempo, politicamente conveniente para o lado americano e potencialmente incômoda para Pequim. Como a China avaliará essa menção — e se responderá com algum gesto concreto — é uma das incógnitas da cúpula.
A programação da visita se estende por dois dias. Na noite de quinta-feira, Xi oferece um banquete de Estado para Trump, que tem como convidado seu filho Eric. Na sexta-feira, os dois líderes voltam a se encontrar para um chá, seguido de um almoço de trabalho, antes de Trump embarcar de volta aos EUA.
O roteiro cuidadosamente planejado sinaliza que ambos os lados querem dar à visita um caráter de substância — e não apenas de cerimônia. Se os resultados concretos vão corresponder à expectativa criada, só o tempo dirá. Por ora, o mundo observa Pequim com uma atenção raramente dispensada a qualquer outro endereço no planeta.
Com informações de Financial Times*