A guerra contemporânea não é um embate ideológico, mas um modelo de negócio bem definido, orquestrado por um ‘complexo financeiro-industrial’ que lucra com a destruição e a reconstrução. Para o analista geopolítico e financeiro Simon Dixon, a lógica por trás dos conflitos é a extração de recursos, o reajuste de preços de commodities e a imposição de novos contratos de tecnologia e energia, garantindo que o capital transnacional saia sempre vitorioso.
Nesse tabuleiro, potências como Estados Unidos e Israel funcionam como meros ‘ativos’ ou ‘procuradores’, cujas forças armadas e aparatos de inteligência são, na prática, alugáveis para os verdadeiros donos do poder. A narrativa de ‘monstros’ a serem combatidos é apenas o teatro necessário para justificar operações que concentram riqueza nas mãos de fundos como BlackRock, State Street e Vanguard, que controlam as maiores fatias acionárias das indústrias militar, energética e tecnológica.
A tese foi detalhada em entrevista transmitida pelo canal ‘Daniel Davis / Deep Dive’, conduzida pelo apresentador que dá nome ao programa. Simon Dixon é um investidor, pioneiro do ecossistema Bitcoin e analista conhecido por suas investigações sobre a intersecção entre finanças, poder e geopolítica. Sua abordagem busca seguir o dinheiro para desvendar as forças que operam acima dos Estados-nação.
Segundo Dixon, a guerra segue um roteiro previsível: é financiada com dinheiro de impostos e inflação, mas os lucros são privatizados por uma elite financeira. Este mesmo grupo de financistas é também o principal acionista das corporações militares, que se beneficiam do aumento de orçamentos de defesa e da venda de armamentos.
O resultado do conflito, seja vitória ou derrota, é indiferente para esses atores, que se protegem e lucram em ambos os cenários. Após a destruição, a fase de ‘reconstrução’ abre uma nova frente de ganhos, com contratos para infraestrutura, instalação de estados de vigilância tecnocrática e exploração de recursos, como petróleo ou minerais raros.
O analista cita o modelo descrito no livro “Confissões de um Assassino Econômico”, de John Perkins, para explicar como narrativas são fabricadas para justificar intervenções. A criação de uma “tensão estratégica”, como a que existe entre Israel e Irã, serve para manter o status quo de uma economia de guerra paralela, alimentada por sanções, mercado negro de armas e rotas clandestinas de petróleo.
Nessa visão, líderes como Benjamin Netanyahu não trabalham primordialmente para seus países, mas para os lobbies financeiros que os financiam e ditam suas políticas. Israel, portanto, atua como um ‘laboratório’ para testar tecnologias militares e cometer atos que os interesses corporativos americanos não poderiam assumir diretamente, garantindo uma conveniente ‘negação plausível’.
Acima dos interesses nacionais, Dixon aponta a existência de um ‘capital transnacional’, uma aliança de fundos soberanos da Noruega, Golfo Pérsico, Singapura e, principalmente, China, que operam em conjunto com a BlackRock e Vanguard. Este supercapital não tem pátria e gerencia o planeta como um portfólio de investimentos, subordinando governos para otimizar seus lucros.
A retirada das tropas americanas do Afeganistão não foi uma derrota para esse capital, mas um movimento estratégico para encerrar um ‘negócio’ (a ‘guerra eterna’) e iniciar outro. O foco agora, segundo ele, é a reconfiguração do Oriente Médio para um modelo de estabilidade regional alinhado aos interesses chineses e à nova ordem multipolar.
O conflito atual é uma operação para transformar Israel em um ‘ativo tóxico’, expondo suas ações para, no futuro, permitir uma aquisição hostil ou uma reestruturação sob o controle deste capital transnacional. Ao mesmo tempo, a crise serve para eliminar as facções do complexo industrial-militar iraniano e americano que lucram com a ‘guerra eterna’ e resistem a uma normalização regional.
A China, como principal parceira comercial do Irã e dos países do Golfo, deseja estabilidade para garantir o fluxo de energia e a expansão de sua infraestrutura de pagamentos, o que desafia o sistema do petrodólar. A normalização das relações entre Irã e Arábia Saudita, mediada por Pequim, é um pilar central desta nova arquitetura financeira global.
Para apaziguar as facções do complexo militar ocidental que perdem com o fim do caos no Oriente Médio, outra zona de conflito é mantida ativa como compensação. Dixon argumenta que a guerra na Ucrânia será prolongada para garantir que as mesmas corporações de defesa continuem recebendo contratos trilionários.
A crise fabricada no Oriente Médio, portanto, mascara uma grande negociação entre os gestores desse capital global, como Larry Fink da BlackRock, e o presidente chinês Xi Jinping. O que está em jogo é como dividir os contratos de energia, tecnologia e reconstrução em um mundo onde o dólar perde a hegemonia e o poder militar americano se torna uma força mercenária a serviço de quem pagar mais.
Enquanto essa transição ocorre, crises como o fechamento do Estreito de Ormuz servem para manter os preços da energia elevados, quebrando pequenas empresas e concentrando ainda mais a riqueza. A instabilidade prolongada, assim como ocorreu durante a pandemia, beneficia uma pequena elite enquanto a população paga a conta com a perda de poder de compra e o aumento do endividamento.
A decisão de escalar o conflito ou caminhar para a paz depende de parâmetros puramente financeiros, como o rendimento dos títulos do tesouro americano e o preço futuro do petróleo. Sempre que esses indicadores atingem um ponto crítico que ameace a estabilidade do sistema financeiro, uma desescalada é anunciada, provando que o conflito é um espetáculo com o ritmo controlado pelos verdadeiros donos do poder.