Uma das maiores erupções vulcânicas do século XXI pode ter entregado à ciência climática uma pista inesperada e poderosa. O vulcão submarino Hunga Tonga–Hunga Ha’apai, localizado no Pacífico Sul e responsável por uma explosão de proporções históricas em janeiro de 2022, parece ter feito algo que nenhum pesquisador havia documentado antes: parcialmente destruído o próprio metano que lançou na atmosfera durante o evento.
A descoberta, publicada na revista científica Nature Communications, está sacudindo o campo das ciências climáticas e abrindo uma janela de esperança sobre novas estratégias para conter o aquecimento global. O estudo foi divulgado pela plataforma EurekAlert e rapidamente ganhou atenção internacional pela magnitude de suas implicações.
O metano é um dos vilões mais perigosos e subestimados da crise climática. Pesquisadores estimam que o gás seja responsável por aproximadamente um terço do aumento global de temperatura, e que, em um período de 20 anos, sua capacidade de reter calor supera em muito a do dióxido de carbono — tornando-o um alvo prioritário para qualquer estratégia séria de mitigação climática.
Ao contrário do CO₂, o metano se decompõe relativamente rápido na atmosfera, o que significa que reduções feitas hoje podem produzir benefícios climáticos mensuráveis em cerca de uma década. Essa janela curta de ação torna o metano uma espécie de ‘freio de emergência’ para o aquecimento global, na expressão usada por cientistas da área.
Para rastrear o fenômeno, os pesquisadores utilizaram o satélite Sentinel-5P, da Agência Espacial Europeia. Os dados captados mostraram níveis incomumente elevados de formaldeído na gigantesca pluma vulcânica ao longo de dez dias, enquanto ela se deslocava em direção à América do Sul — uma assinatura química inequívoca de que o metano estava sendo ativamente destruído no trajeto.
A química por trás do processo envolve uma combinação rara e quase cinematográfica de elementos. Quando a erupção arremessou água salgada do oceano e cinzas vulcânicas para o alto da atmosfera, a luz solar provavelmente desencadeou a formação de átomos de cloro altamente reativos, que então reagiram com o metano e aceleraram sua decomposição.
O autor principal do estudo, o pesquisador Dr. Maarten van Herpen, sintetizou a novidade científica com precisão: ‘É sabido que vulcões emitem metano durante erupções, mas até agora não se sabia que as cinzas vulcânicas também são capazes de limpar parcialmente essa poluição’, conforme declaração reproduzida pelo EurekAlert. A frase captura com exatidão o quanto essa descoberta reescreve o entendimento estabelecido sobre o papel dos vulcões no ciclo atmosférico do metano.
Os números do evento são impressionantes. A erupção do Hunga Tonga–Hunga Ha’apai liberou um estimado de 300 gigagramas de metano na atmosfera. No entanto, os cálculos dos pesquisadores indicam que a pluma também removeu cerca de 900 megagramas de metano por dia — volume comparável às emissões diárias de aproximadamente 2 milhões de vacas.
Conforme revelou o portal The Cooldown em sua cobertura do estudo, a descoberta também pode obrigar os cientistas a revisarem os modelos globais de balanço do metano. Se partículas de poeira e sal destroem o gás com mais frequência do que se imaginava, as estimativas sobre o quanto de metano permanece na atmosfera precisam ser recalibradas — o que pode, inclusive, alterar projeções climáticas de longo prazo.
O pesquisador Matthew Johnson foi além e apontou o potencial tecnológico da descoberta. ‘É uma ideia óbvia para a indústria tentar replicar esse fenômeno natural — mas somente se puder ser comprovado como seguro e eficaz’, afirmou Johnson, acrescentando que o método de monitoramento por satélite poderia ajudar a determinar como os seres humanos poderiam desacelerar o aquecimento global com base nessa lógica.
A descoberta não surge isolada no panorama científico atual. No Canadá, na província de Quebec, cientistas estão construindo uma planta comercial pioneira de remoção de dióxido de carbono da atmosfera, projetada para extrair mais de 120 mil toneladas de CO₂ por ano — um sinal de que a humanidade começa a olhar para soluções de remoção ativa de gases de efeito estufa com mais seriedade.
Os cientistas envolvidos no estudo foram enfáticos ao sublinhar que a descoberta não elimina a urgência de reduzir as emissões de CO₂, cuja acumulação histórica na atmosfera exige décadas de esforço sustentado para produzir impacto real. O metano, contudo, oferece uma alavanca de curto prazo que a natureza, neste caso, demonstrou ser capaz de acionar de formas que a ciência ainda não havia compreendido por completo.
O que o vulcão do Pacífico Sul revelou vai além de uma curiosidade geológica: é um convite à ciência para aprender com os processos da própria Terra antes de tentar replicá-los. A pergunta que agora ecoa nos laboratórios de climatologia ao redor do mundo é se a humanidade será capaz de transformar esse acidente natural em uma ferramenta deliberada — e fazê-lo a tempo.
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