Estudo revela que cérebros anestesiados processam palavras

Paciente recebe anestesia geral em um centro cirúrgico. (Foto: smithsonianmag.com)

Um novo estudo publicado na revista Nature revela que cérebros sob anestesia podem processar sons e palavras, sugerindo que o inconsciente pode estar mais ativo do que se pensava. Pesquisadores do Baylor College of Medicine, liderados pelo neurocirurgião Sameer Sheth, descobriram que o hipocampo, uma estrutura cerebral profunda associada à memória e aprendizado, mantém a capacidade de aprender mesmo quando uma pessoa está anestesiada.

A pesquisa envolveu sete participantes que estavam passando por cirurgia para tratar epilepsia e receberam o anestésico propofol. Durante o procedimento, foram inseridos eletrodos temporários em seus hipocampos para monitorar a atividade cerebral. Os resultados mostraram que, mesmo inconscientes, os cérebros dos participantes conseguiram diferenciar entre sons distintos e até prever palavras subsequentes em frases.

Em um experimento, três participantes foram expostos a uma série de bipes repetitivos intercalados com tons inesperados de diferentes frequências. As gravações cerebrais indicaram que os neurônios dos participantes aprenderam a distinguir entre os sons esperados e os inesperados ao longo do tempo. Para os outros quatro participantes, foram tocados segmentos do podcast “The Moth Radio Hour”, e observou-se que seus hipocampos processavam a linguagem em tempo real, com neurônios respondendo a substantivos e verbos de maneira diferenciada.

Benjamin Hayden, coautor do estudo e neurocientista do Baylor College of Medicine, destacou que esse tipo de codificação preditiva é algo geralmente associado a um estado de vigília e atenção, mas que também ocorre em estado inconsciente. A descoberta levanta questões sobre nossa compreensão da consciência e sugere que o cérebro realiza funções complexas sem que estejamos cientes.

Os resultados foram comparados com um grupo de pacientes acordados que também tinham epilepsia e eletrodos em seus hipocampos, realizando tarefas semelhantes. Janna D. Helfrich, anestesiologista da Universidade de Yale que não participou do estudo, observou que alguns pacientes reconhecem palavras apresentadas durante a anestesia, mesmo sem lembrança explícita de tê-las ouvido.

Os autores do estudo reconhecem que suas descobertas podem não se aplicar a todos os estados de inconsciência, uma vez que a anestesia induz um estado diferente de sono, estado vegetativo persistente, coma e outros estados de consciência alterada. No entanto, conforme mencionado no Smithsonian Magazine, a pesquisa desafia nossas noções sobre o que significa estar consciente e sugere que o cérebro realiza mais atividades nos bastidores do que se imaginava.


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