Pesquisa revela que endurecer células cancerosas potencializa a terapia CAR T-cell contra melanoma

Representação artística de células T (em azul) atacando uma célula cancerosa (em laranja). (Foto: newscientist.com)

Uma nova abordagem científica promete elevar a eficácia de uma das imunoterapias mais avançadas da medicina moderna.

Pesquisadores descobriram que endurecer as membranas das células cancerosas aumenta significativamente os efeitos da terapia CAR T-cell em camundongos com melanoma, a forma mais agressiva de câncer de pele. O novo estudo sugere que a maciez natural das células tumorais pode ser um mecanismo de fuga imunológica — e que neutralizar essa característica física abre caminho para respostas imunes muito mais potentes.

A terapia CAR T-cell funciona por meio de células T geneticamente modificadas para reconhecer e atacar tumores. Ela já revolucionou o tratamento de cânceres de sangue e pele.

Li Tang, pesquisador do Instituto Federal de Tecnologia da Suíça em Lausanne, apresentou os achados em uma conferência recente realizada em Londres. Tang explicou que a equipe queria entender se a maciez das células cancerosas as ajudava a escapar do sistema imunológico e como a capacidade de detecção mecânica das células T influenciava sua resposta ao tumor.

O estudo identificou que as membranas das células cancerosas — tanto de camundongos quanto de humanos — são mais macias do que o normal. Isso ocorre devido ao maior teor de colesterol em sua composição.

Yi Sui, pesquisadora da Queen Mary University of London que não participou do estudo, destacou o caráter inovador da abordagem ao New Scientist. Segundo Sui, abordar um problema médico a partir de uma perspectiva física é altamente promissor, especialmente porque as células T do sistema imunológico têm a capacidade de detectar a rigidez do ambiente ao seu redor.

Para testar a hipótese, os pesquisadores cultivaram tumores em 24 camundongos, injetando células de melanoma próximas a uma das coxas de cada animal. Nove dias depois, todos os animais receberam uma infusão de células T geneticamente modificadas para reconhecer os tumores — imitando o protocolo da terapia CAR T-cell — além de três infusões de IL-15, uma proteína que amplifica a capacidade destrutiva das células T específicas para tumores.

Apenas metade dos camundongos recebeu um terceiro tratamento: injeções diretas nos tumores do composto metil β-ciclodextrina (meβCD), uma substância que reduz os níveis de colesterol nas membranas celulares, tornando-as mais rígidas. Cerca de um mês depois, todos os 12 camundongos que não receberam o meβCD morreram em decorrência do crescimento acelerado dos tumores.

No grupo tratado com o composto, apenas sete animais morreram — e cinco tiveram seus tumores completamente eliminados. O resultado chamou a atenção de especialistas externos ao estudo.

Lance Kam, pesquisador da Columbia University em Nova York, elogiou os resultados e apontou o mecanismo por trás do sucesso. Ao endurecer as células cancerosas, o meβCD permitiu que as células T específicas para tumores se fixassem com muito mais força às células tumorais, entregando moléculas tóxicas como a perforina de forma mais eficiente e destruindo o câncer com maior precisão.

Os pesquisadores planejam expandir os testes para uma gama mais ampla de tipos de tumores em modelos animais. Kam ressaltou que o grande desafio será a transposição da técnica para humanos, uma vez que poucos medicamentos bem-sucedidos em camundongos funcionam com a mesma eficácia em pessoas, dadas as diferenças nos sistemas imunológicos das duas espécies.

Ele acredita, no entanto, que drogas que alteram a rigidez das células cancerosas têm chances maiores de sucesso justamente porque essa característica de maciez é comum tanto em tumores humanos quanto em tumores de camundongos. Em paralelo, a equipe trabalha no desenvolvimento de medicamentos com efeito equivalente ao do meβCD, mas que possam ser administrados em dose única por injeção.

Se os resultados se confirmarem em humanos, a abordagem pode representar um salto qualitativo no arsenal da imunoterapia oncológica. A combinação de biologia molecular com mecânica celular aponta para um novo horizonte no enfrentamento de um dos maiores desafios da medicina contemporânea.

Com informações de NEWSCIENTIST.


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