Por Rollo — ator, artista e espectador profissional de personagens que pregam moralidade em cena enquanto o roteiro desaba fora dela
Enquanto tentam transformar Bolsonaro em herói de cinema em “Dark Horse” — ou, na tradução mais honesta possível pro Brasil, “Cor de Burro Quando Foge” — o noticiário entrega outra coisa: dinheiro suspeito, patriotismo de condomínio, deputado “exilado” em Miami e uma família que passou anos berrando contra corrupção enquanto a realidade fazia teste pro papel de vilã. Como ator, eu assisti ao filme. Como brasileiro, parecia comédia ácida com orçamento público e roteiro escrito pelo caos.
Jair Bolsonaro sempre vendeu a si mesmo como o homem que pisaria na garganta da corrupção brasileira. O “exterminador da mamata”. O “xerife antissistema”. Só que o tempo passou e o roteiro começou a sofrer um pequeno problema: a realidade. E a realidade brasileira, quando encontra messianismo político, costuma escrever sátiras melhores do que qualquer roteirista.
Agora surge Dark Horse — que, numa livre tradução bem brasileira, poderia tranquilamente se chamar “Cor de Burro Quando Foge” — a cinebiografia de Bolsonaro tentando transformar sua trajetória numa epopeia de resistência política. Um “cavalo selvagem” enfrentando o establishment, perseguido pelas elites e combatendo o sistema, enquanto a realidade insiste em parecer menos faroeste heroico e mais confusão empoeirada de quem saiu correndo e deixou perguntas demais pelo caminho. O problema é que, enquanto o filme tenta construir um herói de faroeste conservador, o noticiário insiste em entregar outra estética.
“Dark Horse” tenta transformar a eleição de Jair Bolsonaro em 2018 numa saga heroica, retratando o ex-presidente como um suposto salvador da pátria no combate ao tráfico de drogas / Divulgação
Thriller financeiro de baixo orçamento e cheiro de transferência bancária suspeita
Como ator (e cartunista, quem sabia?) acho fascinante observar isso: existe uma diferença brutal entre personagem e caricatura. O grande intérprete convence porque sustenta coerência interna. Já a caricatura exagera tanto o próprio papel que acaba desmontada pela realidade. Bolsonaro nunca pareceu interpretar um presidente: parecia um algoritmo de indignação com acesso a microfone e faixa presidencial. E aí entra o detalhe mais brasileiro possível: enquanto o filme tenta blindar o mito, aparecem histórias envolvendo o banco Master, dinheiro circulando em órbitas criativas, suspeitas de favorecimento e movimentações financeiras que teriam ajudado até na permanência internacional de Eduardo “Bananinha” Bolsonaro.
A incrível história do deputado que transformou os Estados Unidos numa espécie de exílio sem ditadura
Eduardo é uma figura curiosa: perseguido político sem perseguição concreta, vivendo como influencer patriótico em solo americano enquanto vende a narrativa de resistência ao sistema que o próprio grupo passou anos ocupando. Eduardo parece personagem secundário de série derivada. O sujeito trocou o Parlamento brasileiro por uma temporada indefinida nos EUA, como quem saiu da festa antes da polícia chegar, mas continua postando selfie dizendo que venceu o jogo. É quase uma nova categoria política: o parlamentar em home office ideológico.
E talvez o aspecto mais irônico disso tudo seja o discurso moralista. Durante anos, parte da extrema-direita brasileira apontou artistas, professores, universidades e trabalhadores da cultura como símbolos da “mamata”. Ouvi inúmeras vezes que cultura era privilégio, desperdício, parasitismo estatal. Enquanto isso, a turma da moralidade patriótica parecia transformar gabinetes em balcões familiares de negócios, cercados de sigilos, assessores suspeitos e relações financeiras nebulosas.
O artista precisava justificar edital, nota fiscal, figurino, luz, cabo, cenário e até o grampo da roupa de cena. Já certos defensores da pátria administravam dinheiro público com a espontaneidade de quem organiza rifa de churrasco no grupo da família.
“É frias, Didi!” ou “Que Mário? Aquele…”
E então surge Mário Frias, talvez o coadjuvante mais involuntariamente simbólico de toda essa narrativa. Um ator de carreira irregular, mais lembrado por novelas medianas e presença de ocasião na TV do que por qualquer trabalho artisticamente relevante, que encontrou na máquina bolsonarista o papel principal que nunca conseguiu sustentar no audiovisual. Como secretário especial de Cultura, transformou uma área estratégica do país num palanque permanente de ressentimento ideológico, ataques a artistas, guerras imaginárias contra “comunistas” e vídeos performáticos com estética de live apocalíptica gravada depois de três energéticos e um surto patriótico. Sob sua gestão, a Cultura deixou de ser política pública para virar algoritmo de indignação.
Mário Frias de 1999 / Reprodução
Entre junho de 2020 e março de 2022, foi Secretário da Cultura no governo de Jair Bolsonaro / Reprodução
E agora, orbitando “Dark Horse”, Frias parece finalmente ter encontrado o gênero cinematográfico perfeito: tragicomédia involuntária. Porque suas recentes declarações tentando defender Bolsonaro e minimizar os escândalos financeiros acabaram produzindo exatamente o contrário. Na tentativa desesperada de blindar o mito, entregou entrevistas e falas tão exageradas, confusas e teatralmente inflamadas que parecia um personagem secundário tentando impedir que o público abandonasse a sala antes do terceiro ato. Frias virou algo raro: um ex-ator que, ao entrar na política, desaprendeu completamente a diferença entre interpretação e histeria performática.
A Direita queria um blockbuster… Entregou uma live de condomínio
Uma reportagem investigativa do portal The Intercept Brasil divulgou mensagens e arquivos de voz nos quais Flávio Bolsonaro cobra repasses milionários do empresário Daniel Vorcaro, dono do Banco Master / TV Globo
O mais curioso em “Dark Horse” — que, numa livre tradução bem brasileira, poderia tranquilamente se chamar “Cor de Burro Quando Foge” — é justamente a tentativa de fabricar grandeza histórica num momento em que o entorno político parece desmoronar em câmera lenta.
O cinema biográfico costuma humanizar figuras complexas. Nesse caso, parece existir um esforço desesperado de maquiagem narrativa — como se bastasse trilha sonora épica, fotografia escura e discurso inflamado para apagar rachaduras políticas, investigações e contradições públicas.
No fim, talvez o filme funcione involuntariamente como uma tragicomédia nacional. Porque toda vez que tentam apresentar Bolsonaro como herói incompreendido, a realidade entra em cena roubando completamente o protagonismo. E a sensação final é a de assistir a uma produção que queria ser épica, mas terminou parecendo um cruzamento entre live de condomínio, crise familiar e episódio policial exibido às pressas no fim da noite.
(*) Rollo é ator profissional e ex-integrante do Conselho Estadual de Política Cultural do RJ na cadeira do Audiovisual. Atualmente, integra o elenco do espetáculo teatral “O Bem Amado”, de Dias Gomes, ao lado de Diogo Vilela, com direção de Marcus Alvisi.