Fazenda projeta PIB de 2,3% em 2026 e vê indústria como motor da economia em ano eleitoral

RICARDO STUCKERT/PR

O Ministério da Fazenda projeta crescimento de 2,3% para o PIB brasileiro em 2026, com desaceleração do agronegócio e maior peso da indústria e dos serviços.

A estimativa consta do Boletim Macrofiscal da Secretaria de Política Econômica, que mantém a leitura de expansão moderada da economia em um cenário ainda marcado por juros altos, conflitos comerciais e instabilidade geopolítica. A projeção oficial também aponta inflação menor, com IPCA estimado em 3,6% para este ano.

O número é politicamente relevante porque 2026 será ano de disputa presidencial. Em uma eleição polarizada, crescimento, emprego, renda e inflação terão peso direto na capacidade do governo Lula de defender sua gestão diante da oposição bolsonarista.

A Fazenda reduziu a estimativa de crescimento de 2,4% para 2,3%. Segundo a Agência Brasil, a revisão reflete uma desaceleração acentuada da agropecuária depois da safra recorde de 2025, compensada por maior expansão da indústria e dos serviços.

Esse ponto muda a composição do crescimento. Em 2025, o agro teve papel decisivo para sustentar a atividade. Em 2026, a aposta do governo é que a indústria de transformação, a construção, os serviços e a demanda interna ganhem mais força.

Segundo a SPE, “a expectativa é de estabilidade no ritmo de crescimento e de continuidade da desinflação, possibilitando redução nos juros básicos”. A Selic, hoje em 15% ao ano, segue como um dos principais freios à atividade econômica.

O peso dos juros aparece no diagnóstico oficial. A política monetária contracionista afetou crédito, consumo, investimentos e ritmo de expansão da economia. Mesmo assim, a Fazenda projeta que a redução gradual do custo do crédito poderá ajudar a atividade ao longo do ano.

Pela ótica da oferta, o governo espera desaceleração do campo, mas melhora da indústria. A produção agropecuária deve perder força por causa da menor expansão em culturas como milho e arroz e pela reversão do ciclo de abates bovinos. Já a soja ainda deve sustentar parte do desempenho do setor.

Na indústria, a Fazenda vê espaço para recuperação da transformação e da construção civil. A SPE cita políticas como o Move Brasil, o Propag, o Reforma Casa Brasil e a nova regra de direcionamento da poupança como fatores capazes de impulsionar subsetores industriais e atividades ligadas à construção.

A demanda interna também deve ganhar peso. A Fazenda projeta maior contribuição do consumo e dos investimentos dentro do país, ainda que parcialmente compensada por menor contribuição do setor externo, em um ambiente global mais restritivo.

Esse ambiente externo é um dos principais riscos. A própria Fazenda cita tensões geopolíticas e comerciais, além de uma eventual desaceleração mais forte da economia chinesa, como ameaças ao cenário de 2026.

As tarifas dos Estados Unidos contra produtos brasileiros também entram nessa conta. Em análise anterior, a SPE estimou que a tarifa de 50% imposta por Washington teria impacto negativo de 0,2 ponto percentual no PIB brasileiro até dezembro de 2026. O efeito agregado foi considerado modesto, mas com peso maior em setores como máquinas, eletrônicos, químicos, farmacêuticos, metalurgia, têxteis, vestuário, madeira e papel.

É nesse cenário que programas como o Brasil Soberano ganham importância. A Fazenda avalia que as compensações do plano reduzem o impacto das tarifas sobre o conjunto da economia, embora reconheça que choques de confiança, volatilidade financeira ou piora no crédito poderiam ampliar os danos.

A inflação é outro ponto central da projeção. O IPCA estimado em 3,6% para 2026 indica continuidade da desinflação, depois de alta de 4,26% em 2025. Segundo a SPE, os preços devem se beneficiar da oferta global de bens e combustíveis, do enfraquecimento recente do dólar e dos efeitos da política monetária, embora ainda haja pressões moderadas sobre alimentos.

Para Lula, esse conjunto de números pode ajudar a construir uma narrativa eleitoral de estabilidade. Crescer 2,3% não é uma explosão de atividade, mas também não é estagnação. Se vier acompanhado de inflação menor, juros em queda e renda preservada, pode sustentar o argumento de que o país atravessa turbulências externas sem perder o rumo.

O desafio é transformar projeção em sensação concreta na vida do eleitor. PIB é número agregado. O que pesa na urna é emprego, preço da comida, crédito, salário, aluguel, transporte e capacidade de consumo.

Por isso, a aposta na indústria tem valor político e estratégico. Um crescimento mais industrializado tende a gerar empregos urbanos, ampliar cadeias produtivas e reduzir dependência excessiva de ciclos agrícolas. Para um país que precisa reconstruir capacidade produtiva, isso importa mais do que o número isolado do PIB.

A projeção de 2,3% também recoloca o debate sobre soberania econômica. Em um mundo marcado por tarifas, guerras, disputa por energia e reorganização de cadeias globais, crescer exige mais do que esperar o mercado. Exige crédito, planejamento, política industrial e defesa dos setores nacionais.

O boletim da Fazenda, portanto, não aponta euforia. Aponta uma economia em expansão moderada, tentando trocar o impulso do agro por uma base mais equilibrada entre indústria, serviços e demanda interna.

Se essa transição se confirmar, Lula chegará a 2026 com um argumento forte: mesmo sob juros elevados, tarifas dos EUA e crise internacional, o Brasil seguiu crescendo, reduziu inflação e preservou espaço para política industrial.

A eleição dirá se esse argumento será suficiente. Mas a projeção da Fazenda mostra que a disputa econômica de 2026 já começou: de um lado, a oposição tentará vender desaceleração e desgaste; de outro, o governo apostará em crescimento, desinflação e reconstrução produtiva como prova de rumo.

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