Terapia CAR T mostra potencial inédito para tratar doenças autoimunes graves

Ilustração de células T, que são testadas em tratamento revolucionário para doenças autoimunes. (Foto: smithsonianmag.com)

A terapia CAR T, desenvolvida originalmente para combater cânceres agressivos, está sendo testada com resultados promissores em doenças autoimunes como lúpus e esclerose múltipla. O tratamento consiste em reprogramar geneticamente células T do próprio paciente para que identifiquem e destruam células B defeituosas — aquelas responsáveis por produzir anticorpos que atacam tecidos saudáveis do organismo.

Aprovada pela agência reguladora americana FDA em 2017 para tratar leucemia agressiva, a técnica já proporcionou remissão prolongada a milhares de pacientes oncológicos. Agora, pesquisadores de instituições como a Universidade de Nebraska investigam se o mesmo princípio pode ser aplicado para “resetar” o sistema imunológico de pessoas com condições autoimunes crônicas.

Jan Janisch-Hanzlik, paciente que participou de um estudo clínico na universidade americana, relatou melhorias significativas em sua qualidade de vida após receber o tratamento. Segundo reportagem do Smithsonian Magazine, ela consegue agora realizar atividades diárias sem a necessidade de dispositivos de mobilidade que antes eram indispensáveis.

O mecanismo da terapia envolve a extração de células T do sangue do paciente, que são então modificadas em laboratório para expressar receptores quiméricos de antígenos. Esses receptores permitem que as células reconheçam marcadores específicos nas células B problemáticas, eliminando-as de forma direcionada e preservando o restante do sistema imunológico.

Apesar dos avanços, a terapia apresenta riscos que exigem cautela. Emily Littlejohn, reumatologista da Cleveland Clinic, destaca que os pacientes podem desenvolver inflamação severa e ficar temporariamente imunossuprimidos após o procedimento. Há também preocupações sobre a possibilidade de as células geneticamente modificadas se tornarem cancerígenas a longo prazo.

Para mitigar esses riscos, cientistas desenvolvem versões mais seguras do tratamento. Uma das abordagens utiliza mRNA para limitar a duração da atividade das células T modificadas, reduzindo a chance de efeitos adversos prolongados. Ensaios clínicos recentes indicaram que cerca de dois terços dos participantes com doenças autoimunes apresentaram melhora dos sintomas sem complicações graves.

O custo elevado permanece como um dos principais obstáculos para a democratização da terapia, que pode ultrapassar centenas de milhares de dólares por paciente. Pesquisadores trabalham em alternativas para baratear o procedimento, incluindo o uso de células T de doadores saudáveis em vez das células do próprio paciente, o que permitiria criar tratamentos prontos para uso.

Essa abordagem com células de doadores ainda está em fase de desenvolvimento, mas representa uma esperança concreta para ampliar o acesso ao tratamento. Se os ensaios clínicos continuarem apresentando resultados positivos, a terapia CAR T pode se consolidar como uma opção transformadora para milhões de pessoas que convivem com doenças autoimunes debilitantes em todo o mundo.


Leia também: UCSF revela terapia celular que mantém HIV em remissão por anos


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