Fenda de 500 quilômetros sob o Atlântico revela segredos de 37 milhões de anos

Mergulhador explora uma fenda submarina, ilustrando as profundezas oceânicas. (Foto: ecoticias.com)

Em meio à vastidão do Oceano Atlântico, cientistas desvelaram uma fenda submersa de impressionantes 500 quilômetros de extensão. Este colosso geológico, oculto sob as águas, remonta a 37 milhões de anos, quando forças titânicas moldaram o leito oceânico.

Pesquisadores descobriram que essa trincheira, situada sob o Atlântico, se formou devido a uma fronteira de placas de curta duração que dividiu uma região já enfraquecida pelo calor profundo do manto terrestre. Este achado redefine uma das estruturas mais enigmáticas do fundo do mar como evidência de que forças profundas podem decidir onde a crosta eventualmente se rompe.

Mapas recentes e rochas vulcânicas coletadas durante a expedição M168 do navio de pesquisa alemão METEOR, uma missão oceanográfica focada no mapeamento e amostragem da região, proporcionaram aos cientistas a primeira seção transversal detalhada de toda a estrutura. Trabalhando a partir do Centro de Pesquisa Oceanográfica GEOMAR Helmholtz, a geóloga marinha Dra. Antje Dürkefälden correlacionou essas amostras a partes distintas da trincheira.

«Nossos resultados agora explicam pela primeira vez por que essa estrutura notável se desenvolveu precisamente neste local», declarou Dürkefälden. Uma vez que esse contraste apareceu, a característica deixou de parecer uniforme e revelou uma sequência de eventos geológicos complexos.

As idades do principal canal se agruparam entre cerca de 45 e 38 milhões de anos, enquanto a Peake Deep indicou atividade posterior. Devido à mudança no padrão magnético ao longo da estrutura, a equipe concluiu que a abertura progrediu de leste para oeste.

Lava mais jovem também repousava sobre crosta mais antiga, mostrando que o magma irrompeu após a formação do próprio fundo do mar. Esse cronograma descartou um nascimento simples na crista de expansão e direcionou a narrativa para uma ruptura posterior.

Muito antes da abertura da trincheira, o leito marinho ali já havia sido construído mais espesso do que o habitual por atividade vulcânica extra. Os autores rastrearam esse excesso até uma pluma do manto, uma coluna de rocha incomumente quente ascendendo das profundezas da Terra.

O calor dessa fonte teria amolecido a crosta sobreposta, facilitando seu estiramento e fissura posterior. Essa fraqueza ajuda a explicar por que uma fronteira de placas temporária cortou este trecho em vez de uma área adjacente.

No extremo oriental, duas bacias mais estreitas afundaram ainda mais, atingindo quase 6 mil metros abaixo da superfície do mar. Rochas dessas bacias careciam da química enriquecida vista no canal principal e, em vez disso, assemelhavam-se ao material comum do manto superior.

Esse padrão se encaixa no derretimento por descompressão, onde a rocha ascendente derrete à medida que a pressão cai durante o estiramento da crosta. Esses cortes mais profundos provavelmente marcam o primeiro rompimento duro, não a fase alimentada pela pluma que ocorreu antes.

Os pesquisadores situam a mudança tectônica crucial entre cerca de 37 e 24 milhões de anos atrás, durante uma reorganização de placas de curta duração. À medida que a fronteira se deslocou entre a Europa e a África, o leito marinho abriu-se em um graben, um bloco longo que caiu entre falhas.

A divisão não amadureceu em um novo centro de expansão, o que significa que a ruptura estagnou antes que uma nova crosta oceânica se formasse. Essa história de interrupção deixou a King’s Trough como um registro preservado de uma fronteira de placa que veio e se foi.

Assinaturas químicas nas rochas da trincheira corresponderam de perto ao material vulcânico associado aos Açores, um arquipélago português no meio do Atlântico. Essa semelhança sugere que a fonte de calor sob a King’s Trough era um ramo inicial da mesma ascensão.

O planalto dos Açores começou a se formar há cerca de 20 milhões de anos, quando a pluma principal se concentrou mais ao sul. Caso essa leitura se mantenha, a trincheira captura um momento anterior ao sistema moderno dos Açores se estabelecer.

Nada semelhante a um rio poderia ter esculpido essa característica, pois os fundos oceânicos profundos carecem de água corrente forte o suficiente para desgastá-la. Em vez disso, falhas derrubaram blocos de crosta enquanto cordilheiras e montes submarinos se erguiam ao longo das bordas quebradas.

Algumas estruturas flanqueadoras podem ser ombros inclinados da fenda, enquanto outras provavelmente receberam magma posterior. Essa arquitetura mista explica por que a trincheira parece um cânion visto de cima, mas registra tectônica, não erosão.

Um processo semelhante pode ainda estar em curso perto dos Açores, onde a Fenda Terceira atravessa um leito marinho espesso hoje. Ambas as regiões estão situadas em crosta elevada ao lado da Dorsal Mesoatlântica e mostram bacias longas e irregulares em vez de linhas de expansão ordenadas.

Esse paralelo oferece aos geólogos uma rara visão de como uma fenda oceânica começa, estagna e se reformula. A King’s Trough importa em parte porque preserva um estágio mais antigo que cenários ativos geralmente continuam rearranjando.

Este resultado dependeu de ver a trincheira em detalhes, não como uma linha vaga em um amplo mapa do fundo do mar. Dados de profundidade de alta resolução mostraram como as bacias, cordilheiras e montes submarinos se alinham, enquanto amostras de rochas forneceram idades e química.

Sem ambos os tipos de evidência, a trincheira ainda poderia parecer uma única característica misteriosa com uma causa única. Melhorar o mapeamento oceânico provavelmente reescreverá outras histórias do fundo do mar que permaneceram nebulosas por décadas.

Agora, a King’s Trough é lida como duas forças vinculadas: o calor do manto que enfraqueceu a crosta e o movimento tectônico que a rasgou. Mais amostras dos pisos mais profundos poderiam refinar a linha do tempo, mas esta trincheira já se destaca como um marco para fendas oceânicas estagnadas.

O estudo foi publicado em Geochemistry, Geophysics, Geosystems, conforme relatado no portal Ecoticias.


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