Uma misteriosa depressão gravitacional no Oceano Índico, que há décadas intrigava cientistas, finalmente teve seu enigma desvendado por pesquisadores. O fenômeno, conhecido como Indian Ocean Geoid Low, representa uma área onde a superfície do oceano está cerca de 106 metros mais baixa que as regiões circundantes devido à gravidade mais fraca.
Geofísicos do Centro de Ciências da Terra do Instituto Indiano de Ciência e do Centro de Pesquisa Alemão de Ciências da Terra (GFZ) desenvolveram modelos computacionais que apontam para uma plumagem de material quente no manto terrestre como causa desse fenômeno extraordinário. Segundo a pesquisa publicada no Geophysical Research Letters, essa plumagem não se origina diretamente sob a anomalia, mas sim do ‘superplumo africano’.
A professora Attreyee Ghosh, geofísica do Instituto Indiano de Ciência, descreveu o fenômeno como um dos problemas mais proeminentes nas ciências da Terra. ‘A existência da baixa geóide do Oceano Índico é um dos problemas mais notáveis das Ciências da Terra’, afirmou a pesquisadora. ‘É a anomalia de geóide/gravidade mais baixa na Terra e até agora não havia consenso sobre sua origem.’
Os cientistas utilizaram o código de convecção do manto CitcomS para simular a evolução estrutural do planeta ao longo de aproximadamente 140 milhões de anos. Entre os 19 modelos testados, apenas sete conseguiram reproduzir com precisão tanto o padrão global de geóide quanto a característica específica do Oceano Índico.
O estudo revela que o déficit de massa no manto sob o norte do Oceano Índico é causado por material mais quente e leve, localizado entre 300 e 900 quilômetros de profundidade. Essa plumagem quente, segundo os pesquisadores, provavelmente se origina da província de baixa velocidade de cisalhamento africana e é desviada para leste sob o Oceano Índico.
A rápida movimentação da placa tectônica indiana teria ajudado a direcionar esse material quente para a região, intensificando a anomalia gravitacional ao longo de milhões de anos. Os modelos mostram que a baixa geóide não estava fortemente desenvolvida há 30 milhões de anos, mas intensificou-se há cerca de 20 milhões de anos quando o material quente se espalhou sob a litosfera próxima ao norte do Oceano Índico.
Apesar dos avanços, nem todos os especialistas estão convencidos com os resultados. O professor Alessandro Forte, da Universidade da Flórida, aponta que o modelo falha em reproduzir a poderosa plumagem do manto que erupcionou há 65 milhões de anos sob a Ilha de Reunião, amplamente associada às Traps do Decã, uma das maiores características vulcânicas da Terra.
Ghosh reconhece que nenhum modelo pode capturar todas as incertezas sobre o passado terrestre. ‘Isso ocorre porque não sabemos com precisão absoluta como a Terra era no passado’, explicou a pesquisadora. ‘Quanto mais voltamos no tempo, menor é a confiança nos modelos. Não podemos considerar cada cenário possível e também precisamos aceitar que podem haver discrepâncias em como as placas se moveram ao longo do tempo.’
Esta descoberta não apenas explica uma peculiaridade na superfície do oceano, mas também aprimora como os cientistas conectam gravidade, movimento das placas tectônicas, plumas do manto e a estrutura profunda do planeta. Um melhor entendimento da Baixa Geóide do Oceano Índico pode ajudar os pesquisadores a refinar modelos de circulação do manto, melhorar interpretações de sismotomografia e compreender como placas subduzidas antigas podem remodelar o interior profundo da Terra ao longo de dezenas de milhões de anos.
O trabalho demonstra que alguns dos maiores sinais em escala planetária podem depender de interações entre estruturas do manto distantes, em vez de uma única causa local. Essa descoberta representa um avanço significativo na compreensão das dinâmicas internas do nosso planeta e como elas se manifestam na superfície.
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