Flávio Bolsonaro tentou vender uma inversão grosseira: a tese de que a esquerda teria medo da CPMI do Banco Master. Na tribuna, Jorge Kajuru fez o que bastava para desmontar a encenação: apresentou a lista, os fatos e a assinatura que faltava.
A frase mais dura veio como um golpe seco. “O senhor não assinou, senhor Flávio Bolsonaro, uma CPI do Banco Master, em que 53 senadores assinaram. O senhor não assinou.”
O episódio é politicamente revelador porque expõe o método bolsonarista em estado puro. Primeiro, tenta-se transformar uma investigação complexa em espetáculo contra Lula, a esquerda e o Supremo; depois, quando os fatos começam a apontar para outros lados, tenta-se acusar os adversários de bloquear exatamente aquilo que eles já defenderam.
Foi esse teatro que Kajuru interrompeu. O senador lembrou que foi o primeiro a assinar a CPMI proposta na Câmara e que também assinou, entre os primeiros, o pedido apresentado no Senado por Eduardo Girão.
A fala atinge Flávio Bolsonaro no ponto mais sensível da narrativa. Segundo Kajuru, já havia 53 senadores apoiando a CPI do Banco Master, e Flávio, que agora grita pela investigação nos holofotes, simplesmente não havia colocado seu nome quando era hora.
“Se o senhor quiser assinar agora, o senhor será o 54º, depois de tudo o que aconteceu”, disse Kajuru. Em outras palavras: quem estava atrasado na fila não podia posar de dono da marcha.
O contexto torna a resposta ainda mais devastadora. Em reportagem publicada nesta quinta-feira, o Poder360 registrou que Flávio voltou a defender a CPI e disse que a esquerda “tem medo” da investigação, chegando a perguntar: “Pessoal da esquerda, levanta a mão quem assinou a CPMI do Banco Master?”
O problema para Flávio é que a própria sessão do Congresso desmente a acusação. A Rádio Senado informou que parlamentares de oposição e governistas defenderam a criação da CPMI, citando discursos de Flávio Bolsonaro, Eduardo Girão, Lindbergh Farias e Heloísa Helena.
Lindbergh, vice-líder do governo no Congresso, respondeu diretamente à tentativa de falsificação. Ele afirmou que deputados do PT assinaram requerimentos, incluindo pedidos ligados a Rollemberg, Heloísa Helena e Fernanda Melchionna, além de lembrar que Rogério Carvalho e ele próprio também tinham iniciativas sobre o tema.
Ou seja, não se trata de medo da esquerda, mas de disputa sobre quem controla a narrativa da investigação. A base governista quer a CPMI porque sabe que o caso Banco Master tem ramificações que podem atingir setores poderosos, inclusive personagens do bolsonarismo.
Flávio tentou deslocar o foco para Lula e Alexandre de Moraes, dizendo que queria Daniel Vorcaro sentado na CPMI para falar sobre relações com todos eles. Mas a pergunta política que ficou no ar, depois da intervenção de Kajuru, foi outra: por que o senador que agora faz pose de inquisidor não assinou antes uma CPI que já tinha apoio majoritário no Senado?
Kajuru não fez um discurso inflamado qualquer. Fez uma intervenção cirúrgica, curta, jornalística, quase processual: quem assinou, quem não assinou, quantos assinaram e quem chegou tarde à fotografia.
É por isso que a fala teve força. Ela recolocou os fatos no centro do debate e retirou de Flávio o monopólio da indignação performática.
A CPMI do Banco Master precisa avançar, com transparência, sem blindagem e sem seletividade. Se há culpados, que sejam investigados; se há inocentes, que sejam separados dos culpados, como o próprio Flávio diz em entrevistas e como Kajuru lembrou na tribuna.
Mas investigação séria não combina com falsificação política. Quem quer CPI assina, sustenta e enfrenta os fatos, não inventa que os outros têm medo enquanto tenta chegar atrasado à própria cena que deseja comandar.
Flávio Bolsonaro foi à tribuna para acusar. Saiu dela enquadrado por Kajuru, diante de uma verdade simples e incômoda: a esquerda não fugiu da CPMI do Banco Master, e quem precisava explicar a ausência da própria assinatura era ele.