A China está apostando em uma nova fronteira para garantir o fornecimento de metais essenciais à indústria de alta tecnologia, mirando as montanhas de resíduos gerados pela queima de carvão. A iniciativa busca extrair germânio, alumínio, lítio e gálio das cinzas e refugos das usinas termelétricas do país.
O acadêmico Dai Shifeng, membro da Academia Chinesa de Ciências e professor da Universidade de Mineração e Tecnologia da China em Pequim, afirmou que os rejeitos de carvão contêm uma variedade de elementos metálicos e podem se tornar uma importante fonte de suprimento de metais críticos. A declaração foi dada em entrevista ao jornal China Energy News no final de abril.
A estratégia chinesa se apoia em uma vantagem estrutural decisiva: as linhas de produção de carvão do país já integram instalações de lavagem, processamento químico e geração de energia. Essa base industrial consolidada oferece uma plataforma robusta para a recuperação desses recursos valiosos.
O germânio e o gálio, por exemplo, são componentes indispensáveis na fabricação de semicondutores, fibras ópticas e painéis solares, setores em que a China busca autonomia diante das restrições tecnológicas impostas pelo Ocidente. O lítio, por sua vez, é o coração das baterias que movem a revolução dos veículos elétricos e dos sistemas de armazenamento de energia.
Dai Shifeng fez uma ressalva técnica importante: o sucesso da extração depende de um acompanhamento rigoroso da qualidade e da composição do carvão queimado. Muitas usinas misturam carvão de diferentes origens antes da combustão, o que faz com que o teor metálico das cinzas volantes varie constantemente e dificulte o processo de recuperação.
A iniciativa se insere em um esforço mais amplo de Pequim para reduzir a dependência de importações de minerais estratégicos, em um momento de acirramento das tensões geopolíticas e da competição global por recursos. A transformação de um passivo ambiental em ativo tecnológico representa um salto de engenhosidade com potencial para reconfigurar as cadeias de suprimento globais.
A recuperação de metais a partir de rejeitos também dialoga diretamente com as metas ambientais do país, ao dar uma destinação produtiva a resíduos que, de outra forma, permaneceriam acumulados em aterros e bacias de contenção. O modelo combina economia circular, segurança de recursos e inovação industrial em uma única frente de ação.
A China é atualmente a maior produtora mundial de carvão e também a maior geradora de cinzas de carvão, o que confere escala incomparável ao projeto. Com a tecnologia de extração suficientemente madura, o volume de material disponível pode transformar completamente a equação de oferta de metais críticos no mercado internacional.
Leia mais sobre o assunto na scmp.com.
📨 Inscreva-se na Newsletter de O Cafezinho
Receba nossas análises e as principais notícias diárias do Brasil e do Sul Global.