Em um corredor do Hospital Nasser, na cidade de Khan Younis, a palestina Iman Abu Jame, de 32 anos, observa o filho Yasser, de seis, coberto por erupções que lembram queimaduras e cuja causa os médicos ainda não conseguem explicar. O menino está extremamente debilitado pela fome e pela propagação descontrolada de infecções de pele que assolam os campos de deslocados em Gaza.
A família vive em uma tenda superlotada em al-Mawasi, oeste de Khan Younis, onde montanhas de lixo se acumulam e a água disponível está contaminada. Insetos e roedores circulam pelos abrigos precários, e a falta de saneamento e alimentos transformou a região em um foco de doenças.
Yasser era uma criança saudável antes da guerra no Oriente Médio, que já dura quase dois anos e oito meses, segundo sua mãe. A desnutrição, provocada pela grave escassez de alimentos e pelos preços inacessíveis, enfraqueceu seu organismo e abriu caminho para as infecções cutâneas.
Casos como o de Yasser se multiplicam em Gaza, onde o Ministério da Saúde local registrou mais de 17 mil infecções ectoparasitárias apenas em 2026. Equipes da organização Medical Aid for Palestinians (MAP) afirmam que as doenças de pele se espalham em ritmo alarmante entre as famílias deslocadas.
Segundo uma reportagem da Al Jazeera, em abril a MAP examinou 7.017 pessoas em seis centros de atenção primária e diagnosticou 1.325 com doenças de pele, das quais mais de 62% eram crianças. Entre elas, havia 168 bebês com menos de dois anos. A médica Rana Abu Jalal, da Policlínica Solidária da MAP em Deir el-Balah, relata que muitas infecções evoluem para quadros graves, com abscessos dolorosos, e que as crianças são as mais vulneráveis.
A médica explica que a superlotação das tendas, a água insegura, a ventilação precária e a ausência quase total de produtos de higiene são os motores da crise. ‘As famílias nos contam diariamente como tentam lidar com a situação, mas essas condições estão completamente fora de seu controle’, afirmou.
Em Khan Younis, o médico Alaa Ouda atende de 70 a 80 pacientes por dia em uma clínica apoiada pela MAP, com casos de sarna, infestações por pulgas e infecções fúngicas. Ele alerta que as pulgas estão transmitindo sarna e que há um tipo de inseto ainda não identificado cujas picadas evoluem para feridas abertas.
A escassez de medicamentos agravou-se a ponto de o tratamento básico com permetrina ter desaparecido por completo. O trabalhador comunitário de saúde Mohammed Fathi, também da MAP, relata que muitas famílias simplesmente deixaram de buscar atendimento porque os remédios não estão disponíveis e os pacientes voltam às mesmas condições que os adoeceram.
A situação é agravada pelo bloqueio israelense, que mantém severas restrições à entrada de ajuda humanitária mesmo após o cessar-fogo de outubro. Enquanto isso, a fome segue como pano de fundo de todas as outras enfermidades que consomem a infância em Gaza. Segundo a Al Jazeera, a crise sanitária em Gaza continua a se agravar, com as crianças sendo as principais vítimas.
Leia mais sobre o assunto na aljazeera.com.
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