A pesquisa Datafolha mais recente expõe o tamanho do estrago que o caso ‘Dark Horse’ provocou na pré-candidatura de Flávio Bolsonaro (PL). Em uma semana, o senador saiu do empate técnico com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e viu o petista abrir quatro pontos de vantagem no segundo turno.
Os números, captados entre 20 e 22 de maio com margem de erro de dois pontos, indicam um impacto imediato, como detalhou a reportagem do jornal O Globo. Lula agora lidera com 47% contra 43% de Flávio no confronto direto, a maior diferença do ano na série histórica do instituto.
No primeiro turno, a dianteira do presidente é ainda mais elástica: ele marca 40%, enquanto o filho de Jair Bolsonaro despenca para 31%, o pior desempenho de 2026. A rejeição ao senador também subiu de 43% para 46%, fazendo-o ultrapassar numericamente Lula, que registra 45%, no topo do ranking negativo.
O estopim da crise foram as mensagens em que Flávio pedia dinheiro ao banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, para financiar a cinebiografia do pai. O senador havia garantido repetidas vezes que não existia nada comprometedor no caso Master, mas os áudios e o encontro com Vorcaro enquanto ele já usava tornozeleira eletrônica desmoralizaram essa versão.
A irritação se alastrou pelo PL, pelo Centrão e entre empresários simpáticos à candidatura, embora a legenda mantenha o nome de Flávio e estipule o início de junho como prazo para bater o martelo. Jair Bolsonaro descarta, por ora, qualquer troca, mesmo que o Datafolha também teste Michelle Bolsonaro, que marca 22% no primeiro turno e 43% contra 48% de Lula no segundo.
No entorno do senador, a leitura é de que o dano é ‘recuperável’ e não justifica uma substituição, como ecoou o senador Marcos Rogério (PL-RO). O campo lulista, entretanto, prega cautela e reconhece que parte dos eleitores que hoje abandonam Flávio pode retornar até outubro.
A avaliação na campanha petista é de que esses votos não migraram para Lula: ficaram na margem dos indecisos ou tendem a virar abstenção, pois carregam forte viés antilulista. Para tentar fisgar esse eleitorado, o governo turbinou um pacote de bondades – isenção da taxa das blusinhas, crédito para taxistas e motoristas de aplicativo e o novo Desenrola 2.0.
Ao mesmo tempo, o PT montou uma artilharia digital coordenada por Nicole Briones, responsável pelas redes de Lula quando ele esteve preso em Curitiba, para martelar diariamente o caso Master contra Flávio. Enquanto isso, os demais candidatos de direita seguem patinando e não conseguem capitalizar o desgaste do bolsonarismo: Ronaldo Caiado (PSD) tem 4%, Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão) marcam 3% cada.
O cientista político Jairo Pimentel, do Laboratório de Opinião Pública e Mídias Digitais da FESPSP, avalia que o caso afetou a intenção de voto, mas ainda não transformou a rejeição de Flávio em algo estruturalmente superior à de Lula. Para ele, a eleição continua organizada em torno de dois polos de alta rejeição, e o episódio apenas interrompeu a trajetória ascendente do senador.
O quadro geral é de uma candidatura bolsonarista que perdeu impulso justamente no momento em que ameaçava o empate na série histórica. Lula recuperou fôlego, mas está longe de uma situação confortável, e a cautela nos dois lados revela que ninguém subestima a volatilidade do eleitorado nem a capacidade de o bolsonarismo reenquadrar o escândalo a seu favor.
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