A crise envolvendo o ex-banqueiro Daniel Vorcaro transformou a pré-candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL) em um ativo tóxico que o campo bolsonarista terá que vender a alto preço aos potenciais aliados. O diagnóstico é de analistas políticos que, em reportagem do Valor Econômico nesta quinta-feira (23), traçaram os efeitos dos áudios vazados e das versões contraditórias sobre o filme ‘Dark Horse’.
A cientista política Lara Mesquita, da Fundação Getulio Vargas (FGV), foi direta: Flávio agora precisa convencer que não vai ser tóxico se associar a ele. A admissão, após negativa inicial, de que houve dinheiro de Vorcaro na produção cinematográfica enfraqueceu a credibilidade do candidato justamente no momento em que tentava construir uma plataforma nacional de alianças.
Para Rafael Cortez, cientista político ligado à Tendências Consultoria, substituir Flávio como candidato neste momento seria uma ‘confissão de culpa’ que enfraqueceria o projeto da família de se colocar como protagonista da frente antipetista. Assim, apesar dos danos, a alternativa é navegar na turbulência contando que a fidelidade da base bolsonarista absorva o golpe.
O problema, no entanto, está na estrutura que sustenta a candidatura. Cortez aponta que Flávio enfrenta um ‘teste de biografia’, já que sua identidade política ainda está atrelada ao pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro. A candidatura foi uma construção de cima para baixo, sem consenso partidário ou viabilidade clara para além da sombra familiar, fragilidade que os áudios escancararam.
As conversas vazadas, nas quais Flávio aparece pedindo dinheiro a Vorcaro, transformaram um desconforto latente em crise concreta. Para além do aspecto transacional, a marcha à ré em suas declarações – primeiro negando, depois admitindo os recursos – instalou uma nuvem de desconfiança sobre o que mais o senador pode estar escondendo do eleitorado.
Embora os analistas considerem improvável uma ‘revolução’ no cenário eleitoral, dada a escassez de alternativas sólidas na oposição, o revés não é desprezível. Flávio ganhou uma dificuldade adicional para capitalizar o descontentamento com o governo, justamente quando a avaliação da gestão do presidente Lula permanece dividida, segundo Cortez.
O efeito mais imediato se dá no tabuleiro partidário. O PL viu seu poder de barganha no tradicional toma-lá-dá-cá das coligações encolher de forma dramática. Agora, para atrair parceiros, a campanha de Flávio terá de oferecer contrapartidas mais generosas, como repasse de recursos de campanha para partidos coligados e cessão de palanques estaduais em troca de um apoio nacional frágil.
Mesquita adverte que o custo político elevado pode relegar o PL a um campo em que os aliados evitem a união formal, preferindo um apoio informal apenas mais adiante, sem contaminar suas plataformas locais. Esse cenário de adesão morna revela um mal-estar profundo no campo conservador em embarcar em uma nau que pode estar à deriva.
A polêmica encurrala a narrativa bolsonarista que prega uma ética incorruptível e superior à da política tradicional. As sucessivas contradições de Flávio no episódio tornam menos crível a suposta superioridade moral que a família usa como moeda eleitoral, abrindo flancos no discurso da direita.
Assim, mesmo sem substituto no horizonte, a pré-candidatura sai da linha de largada com o trem de pouso avariado. A direita, sem um nome capaz de unificar o voto anti-Lula para além do núcleo duro bolsonarista, vê seu espaço eleitoral se transformar em um labirinto onde os custos da toxicidade se tornaram pedágio incontornável para qualquer aliado.
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