Nova espécie de peixe caveira derruba ideia de beco sem saída evolutivo

Imagem de raios-X e modelo 3D do esqueleto de um peixe-cego de caverna. (Foto: phys.org)

Uma nova espécie de peixe cego de caverna, batizada de Typhlichthys styx, foi identificada por pesquisadores da Universidade de Yale. A descoberta desafia a hipótese centenária de que ecossistemas subterrâneos são becos sem saída evolutivos, onde a diversificação de espécies simplesmente para.

O estudo, publicado no periódico Integrative Organismal Biology e divulgado pelo portal Phys.org, analisou três espécies do chamado peixe-caverna-do-sul que habitam aquíferos no sudeste dos Estados Unidos. Todas elas, incluindo a recém-descoberta, evoluíram de um ancestral comum que já havia se adaptado à vida subterrânea e se dispersado por formações rochosas solúveis.

Chase Brownstein, estudante de pós-graduação em ecologia e biologia evolutiva em Yale e autor principal da pesquisa, afirma que o que acontece no subsolo importa para a evolução. Ele explica que a análise genética mostrou que as três espécies divergiram entre si apenas depois que seu ancestral invadiu as cavernas, sendo a geologia subterrânea o fator decisivo para essa especiação.

Desde que Charles Darwin, em 1859, descreveu os organismos de caverna como destroços de vida antiga, consolidou-se a ideia de que esses ambientes são becos sem saída evolutivos. A nova pesquisa, no entanto, fornece as melhores evidências até agora de que a especiação pode, sim, ocorrer em espécies totalmente adaptadas ao subterrâneo.

Os pesquisadores montaram uma árvore evolutiva calibrada no tempo a partir de dados genéticos, revelando uma terceira linhagem geograficamente distinta, com populações no Tennessee, Alabama e Geórgia. Essa linhagem compartilhou um ancestral comum com as outras duas há cerca de 8 milhões de anos, confirmando sua separação evolutiva.

Tomografias computadorizadas dos espécimes mostraram diferenças anatômicas claras: enquanto todos perderam os olhos, a nova espécie preserva restos de ossos interorbitais que formavam parte das órbitas oculares. Esse traço esquelético está ausente nas outras duas espécies, reforçando a classificação como uma espécie distinta.

A distribuição das populações não acompanha os rios e riachos de superfície, mas sim as fronteiras dos aquíferos subterrâneos. Essas estruturas geológicas funcionam como rios invisíveis, abrindo canais em terrenos cársticos e permitindo a ampla dispersão dos peixes pelas cavernas.

Muitas populações de Typhlichthys styx e de outras espécies de peixe-caverna-do-sul estão ameaçadas por atividades humanas que reduzem e contaminam as águas subterrâneas. A construção de represas, o uso excessivo de água e o despejo de resíduos industriais e agrícolas colocam em risco esses ecossistemas ocultos.

Você não pode proteger uma espécie se nem sabe que ela existe, alerta Brownstein, vinculando a descoberta à crise global de biodiversidade. O trabalho se insere em um esforço mais amplo, em curso no campus de Yale, para entender e conservar a diversidade da vida no planeta.

Leia mais sobre o assunto na phys.org.


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