Ossos de 37 pessoas em jarro milenar do Laos reescrevem o mistério da Planície dos Jarros

Jarros de pedra milenares na Planície dos Jarros, no Laos. (Foto: zmescience.com)

Por séculos incontáveis, os enigmáticos jarros de pedra do norte do Laos permaneceram abertos ao céu, silenciosos e impenetráveis, recusando-se a entregar seus segredos a qualquer visitante. Nenhuma inscrição, nenhum vestígio evidente revelava quem os esculpiu ou qual propósito ancestral os mantinha de pé sobre o planalto de Xieng Khouang.

Agora, um desses vasos colossais finalmente rompeu o silêncio milenar e ofereceu pistas que reescrevem o mistério arqueológico mais fascinante do Sudeste Asiático. Arqueólogos descobriram ossos e dentes de pelo menos 37 indivíduos depositados ao longo de aproximadamente 270 anos no interior de um único jarro de conglomerado rochoso.

A escavação, conduzida ao longo de três temporadas de campo entre 2022 e 2024, concentrou-se no Sítio 75, cerca de 70 quilômetros a nordeste de Phonsavan, capital da província de Xieng Khouang. O Jarro 1, como foi designado, impõe-se com 1,3 metro de altura e mais de 2 metros de diâmetro na base, uma massa pétrea que exigiu esforço comunitário monumental para ser transportada e instalada.

A equipe foi liderada por Nicholas Skopal, pesquisador da James Cook University e da Australian National University, em parceria com o especialista em patrimônio laosiano Souliya Bounxayhip e colegas de ambas as instituições. O trabalho minucioso revelou um inventário funerário extraordinário: ossos desarticulados, fragmentos cranianos, dentes, uma faca de ferro, um pequeno sino de cobre, 20 contas de vidro, fragmentos de cerâmica e cinco lajes de pedra.

Os ossos não repousavam como esqueletos completos, mas exibiam uma disposição deliberada que intrigou os pesquisadores desde o primeiro momento. Ossos longos agrupavam-se junto às bordas internas do jarro, enquanto fragmentos cranianos surgiam em concentrações específicas, e ossos menores e mais frágeis eram notavelmente escassos.

Esse arranjo peculiar aponta para um ritual de ‘sepultamento secundário’, prática funerária na qual o corpo se decompõe em outro local antes que os ossos selecionados sejam recolhidos e transferidos para um recipiente definitivo. O Jarro 1 teria funcionado, portanto, como um ossuário — um receptáculo sagrado para abrigar os restos de ancestrais, e não como uma sepultura convencional.

A datação por radiocarbono de oito amostras de ossos e dentes humanos, conforme detalhou o portal ZME Science ao divulgar o estudo, situa o uso funerário do jarro entre aproximadamente 890 e 1160 d.C. Trata-se de um intervalo de quase três séculos que demonstra como gerações sucessivas retornaram ao mesmo recipiente para depositar seus mortos, tecendo uma linhagem contínua de memória e ritual.

‘O número de indivíduos também sugere que os jarros pertenciam a famílias ou grupos familiares extensos’, afirmou Skopal ao interpretar os achados para a imprensa científica internacional. Esses vasos colossais provavelmente serviam como palco onde ritos ancestrais eram encenados ao longo de gerações, ancorando a identidade de comunidades inteiras em um ponto fixo da paisagem.

Há indícios sutis de manipulação física dos restos mortais que reforçam a dimensão ritualística do local. Quatro associações entre crânios e mandíbulas sugerem que alguns corpos foram depositados quando ainda mantinham conexões parciais de tecido, ou que os ossos foram deliberadamente remontados durante cerimônias de manejo dos ancestrais.

Os pesquisadores também identificaram sinais de ablação dentária — a remoção intencional de dentes — em pelo menos dois dos indivíduos analisados. Esse detalhe corporal, carregado de significado simbólico, ecoa práticas registradas em outras culturas antigas do Sudeste Asiático e adiciona uma camada de complexidade à identidade do povo dos jarros.

Entre os ossos, emergiu um tesouro inesperado que expandiu radicalmente a geografia do mistério: 20 contas de vidro minúsculas, mas de imenso valor arqueológico. A análise química revelou que a maioria pertencia a um tipo de vidro associado ao Sul da Ásia, especialmente ao leste do subcontinente indiano, enquanto outras duas contas tinham composição alinhada com o Oriente Médio.

Uma conta adicional apontou para o sudeste da China ou para o norte do Vietnã, ampliando ainda mais o mapa de conexões desse planalto remoto. O Jarro 1 foi utilizado durante um período de franca expansão das redes comerciais asiáticas, quando rotas terrestres e marítimas entrelaçavam a China, o Sudeste Asiático continental, o Sul da Ásia e o mundo islâmico.

Os autores do estudo, publicado no periódico Antiquity, argumentam que as contas de vidro demonstram que as terras altas do Laos estavam longe de ser uma região isolada e provinciana. Ao contrário do que se supunha, as comunidades que erigiram os jarros participavam ativamente de circuitos de intercâmbio que alcançavam a Índia e a Mesopotâmia.

A descoberta, no entanto, não dissolve todas as brumas que envolvem a Planície dos Jarros, um dos sítios arqueológicos mais enigmáticos do planeta. Permanece sem resposta a pergunta fundamental: quem esculpiu essas ânforas gigantescas, algumas com altura superior à de uma pessoa e peso de várias toneladas?

Os arqueólogos ainda não sabem como esses monumentos foram transportados através do planalto, por que sua produção cessou em determinado momento da história ou se todos os sítios de jarros seguiam o mesmo roteiro ritualístico. O trabalho arqueológico moderno na região tem sido dificultado pela presença de munições não detonadas, herança dos bombardeios massivos durante as guerras da Indochina.

O mistério dos construtores dos jarros permanece, por ora, visível apenas por meio daquilo que deixaram junto aos seus mortos. Nenhum assentamento correspondente à escala monumental dos jarros foi encontrado até hoje, como se a civilização que os produziu tivesse se dissolvido na paisagem, deixando apenas esses recipientes de pedra como testemunhas.

A equipe de Skopal e Bounxayhip planeja agora aprofundar a investigação sobre os 37 indivíduos cujos restos repousaram por séculos no interior do Jarro 1. Análises isotópicas e de DNA antigo podem revelar quem eram essas pessoas, o que comiam, qual era seu estado de saúde, de onde vieram originalmente e se compartilhavam laços de parentesco.

O que já se sabe é suficientemente perturbador para reacender o fascínio global por esse Stonehenge do Sudeste Asiático. Pela primeira vez, um jarro da Planície de Xieng Khouang não apenas guardou seus mortos, mas sussurrou seus segredos, revelando uma comunidade que negociava com impérios distantes e honrava seus ancestrais em rituais que atravessavam séculos.


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