O Centro de Lançamento de Satélites de Jiuquan viu decolar na noite deste domingo o foguete Longa Marcha 2F, levando ao espaço a missão Shenzhou-20 e três astronautas rumo à estação espacial Tiangong, o Palácio Celestial chinês. Pela primeira vez na história do programa tripulado do país, um dos tripulantes estenderá sua permanência a um ano inteiro em órbita, coletando dados vitais para as ambiciosas missões lunares previstas ainda para esta década.
O grupo é composto pelo comandante Zhu Yangzhu, engenheiro aeroespacial de 39 anos, pelo estreante Zhang Zhiyuan, ex-piloto da força aérea, e por Li Jiaying, de 43 anos, que se torna a primeira astronauta oriunda de Zhengzhou, Henan, a alcançar o espaço. A definição de qual dos três assumirá a estadia de doze meses foi planejada previamente, conforme os objetivos científicos a bordo da Tiangong.
O cerne da missão é o monitoramento contínuo dos efeitos severos que a microgravidade impõe ao organismo humano, como atrofia muscular, perda de densidade óssea e distúrbios do sono, além do estresse psicológico e da exposição à radiação cósmica. Esses indicadores são fundamentais para calibrar a resistência fisiológica exigida em voos de longa duração à Lua e, futuramente, a Marte, em um esforço que a Agência Espacial Tripulada da China (CMSA) posiciona como etapa-chave do planejamento interplanetário.
O avanço chinês no espaço é fruto de um investimento bilionário iniciado há três décadas e acelerado após a exclusão do país da Estação Espacial Internacional (ISS), em 2011, por restrições legais impostas pelo governo dos Estados Unidos. Longe de interromper a trajetória, o isolamento diplomático impulsionou Pequim a construir sua própria base orbital, transformando a autossuficiência em alicerce de um programa que já coleciona marcos como o primeiro pouso no lado oculto da Lua, em 2019, e a chegada de um rover a Marte, em 2021.
Ainda este ano, estão programados os testes orbitais da nova espaçonave Mengzhou, a Nave dos Sonhos, projetada para substituir a Shenzhou nas futuras missões lunares e iniciar a montagem do primeiro módulo da Estação Internacional de Pesquisa Lunar (ILRS) até 2035. O projeto da ILRS, liderado pela China em parceria com países do Sul Global, solidifica a posição de Pequim como superpotência espacial ao desafiar a arquitetura de cooperação definida pela órbita ocidental.
Ao manter um astronauta por um ano no Palácio Celestial, a China não apenas desbrava os limites do corpo humano, mas também demonstra que a exclusão geopolítica não paralisa a inovação quando há investimento estatal consistente. O relógio biológico que agora começa a contar no espaço ecoa no tempo histórico de uma nova ordem da exploração espacial, onde o centro de gravidade se desloca cada vez mais para a Ásia.
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