As declarações do apresentador Luciano Huck sobre o Bolsa Família, proferidas em um fórum empresarial e viralizadas nas redes, revelam muito sobre o preconceito enraizado de parte da elite brasileira.
O que poderia ser apenas mais um comentário infeliz de uma celebridade transformou-se em uma oportunidade pedagógica para desmontar mitos que cercam o principal programa de transferência de renda do país.
Huck afirmou que, ao concentrar 56% da economia de Senhor do Bonfim no programa, não se gera estímulo para as pessoas saírem, sugerindo que os beneficiários buscam ‘atalhos para ficar no programa ad aeternum’.
Segundo o colunista Leonardo Sakamoto, em análise publicada no UOL, a fala não melhora com a tentativa de retratação, quando o apresentador alegou ter sido tirada de contexto.
A ideia de que o Bolsa Família mantém as pessoas na pobreza parte de um pressuposto equivocado e classista: o de que a maioria dos pobres é preguiçosa e prefere viver de esmola a trabalhar.
Essa matriz de interpretação já foi verbalizada por figuras como o ex-presidente Jair Bolsonaro, que criticou o programa em diversas ocasiões.
Um outdoor colocado em uma rodovia de São Paulo no ano passado explicitava esse pensamento: ‘Deixe de ser escravo (da sua bolsa família). Procure uma atividade remunerada’.
A peça, sem assinatura, materializa a visão de que a pobreza é culpa do pobre e de que a solução é cortar o pequeno auxílio que recebe.
Dados oficiais da Secretaria Nacional de Renda de Cidadania mostram que a esmagadora maioria dos beneficiários trabalha e deseja melhorar de vida.
Entre janeiro e outubro do ano passado, mais de 2 milhões de famílias deixaram voluntariamente o programa, sendo 1,3 milhão por aumento de renda no domicílio e quase 727 mil após concluírem a regra de proteção que permite receber metade do valor por até 12 meses.
O valor médio pago às 18,9 milhões de famílias em abril foi de R$ 678,22, quantia que dificilmente sustentaria uma vida de ‘grana fácil’ como insinua o comentário de Huck.
Estudo da Fundação Getúlio Vargas (FGV) revelou que, de cada dez beneficiários em 2014, seis conseguiram deixar o programa nos dez anos seguintes, índice que sobe para sete entre jovens de 15 a 17 anos.
A taxa de desemprego no trimestre encerrado em fevereiro deste ano ficou em 5,8%, a menor para o período desde 2012, segundo o IBGE.
Isso indica que o Bolsa Família não desestimula o trabalho; ao contrário, a garantia de uma renda mínima permite que as pessoas busquem melhores oportunidades em vez de aceitarem qualquer condição por desespero.
Portanto, em vez de atacar o programa, setores empresariais que reclamam de falta de mão de obra deveriam melhorar salários e condições de trabalho.
Cabe ao poder público, por sua vez, combater a inflação de alimentos e o endividamento das famílias, incluindo a restrição à propaganda de apostas que tanto prospera inclusive nos intervalos dos programas de entretenimento.
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