DNA ambiental revela perda de biodiversidade escondida em riachos de Ontário

Pesquisador coleta amostras em um rio cercado por vegetação densa. (Foto: phys.org)

Pesquisadores da Universidade de Guelph, no Canadá, demonstraram que a tecnologia de DNA ambiental (eDNA) pode expor perdas de biodiversidade em ecossistemas de água doce que passam completamente despercebidas pelos métodos convencionais de monitoramento. O estudo, publicado na revista Molecular Ecology, analisou macroinvertebrados bentônicos em 18 riachos da bacia do Rio South Nation, no leste de Ontário, região dominada pela agricultura intensiva.

A pesquisa revelou que um único ano de análise com metabarcoding de DNA identificou 282 espécies, enquanto décadas de levantamento morfológico tradicional registraram apenas uma fração dessa diversidade. Das 282 espécies detectadas, 261 foram encontradas exclusivamente pelo método genético, e apenas 21 espécies únicas não capturadas pelo DNA apareceram nas amostras convencionais.

No nível local, a riqueza mediana de espécies por local saltou de 15 com o método tradicional para 59 usando o eDNA. Quase 44% das espécies detectadas apareceram em um único ponto de coleta, sugerindo distribuições altamente localizadas que a vigilância convencional jamais captaria.

As análises de DNA também forneceram uma resolução ecológica muito mais nítida, distinguindo com clareza os impactos da agricultura, da silvicultura e do uso misto do solo sobre a composição das comunidades aquáticas. Os riachos agrícolas mostraram forte associação com condutividade elevada, turbidez e alterações de pH, indicadores típicos de escoamento de fertilizantes e perturbação do solo, enquanto os cursos florestados exibiram maior oxigênio dissolvido e biodiversidade.

Segundo o autor sênior do estudo, Mehrdad Hajibabaei, da Universidade de Guelph, a tecnologia de metabarcoding de DNA pode revelar padrões ecológicos e mudanças na biodiversidade que as abordagens tradicionais frequentemente não detectam. Hajibababaei afirma que a capacidade de identificar alterações em nível de espécie de forma rápida e precisa pode transformar radicalmente o monitoramento e a proteção dos ecossistemas aquáticos sob estresse ambiental crescente.

O trabalho destaca as limitações históricas do biomonitoramento baseado em morfologia, que depende de especialistas em taxonomia e muitas vezes não consegue distinguir organismos intimamente relacionados ou imaturos. Entre os quase 80 mil espécimes coletados pelo programa convencional de Ontário entre 2008 e 2022, a maioria não pôde ser identificada até o nível de espécie apenas pela morfologia.

A pesquisa apoia a tendência internacional de integrar o eDNA aos programas rotineiros de avaliação ambiental, por exigir menos especialização taxonômica e oferecer maior rapidez, reprodutibilidade e sensibilidade ecológica. Os autores defendem que o futuro do biomonitoramento de água doce deve combinar varreduras rápidas baseadas em DNA com pesquisas tradicionais direcionadas quando necessário.

A bacia do Rio South Nation, com seus 3.900 quilômetros quadrados de paisagem agrícola, florestal e urbana, serviu de laboratório ideal para demonstrar que mesmo mudanças modestas na composição das comunidades aquáticas podem servir como alerta precoce de degradação. Em um planeta onde a agricultura ocupa mais de 37% da superfície terrestre e pressiona cada vez mais os recursos hídricos, a nova ferramenta genética pode ser crucial para evitar perdas silenciosas de biodiversidade.

Leia mais sobre o assunto na phys.org.


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