Neurocientista desmonta a metáfora do cérebro como computador em novo livro

Imagem conceitual de um cérebro humano com parte em formato de rede digital. (Foto: nature.com)

O neurocientista Romain Brette, em seu novo livro The Brain, In Theory, lança um ataque sistemático ao modelo dominante que trata o cérebro como um computador. A obra, publicada pela Princeton University Press, desconstrói as metáforas da engenharia que há décadas orientam a neurociência, argumentando que elas são vagas, incoerentes e incapazes de capturar a cognição animal.

Brette sustenta que cérebros reais não são projetados, mas evoluem e se desenvolvem como organismos vivos. O autor rejeita a ideia de que os neurônios seguem regras fixas ou executam computações, e nega que a atividade neural seja um código onde uma variável é mapeada diretamente a outra, como no código Morse.

O livro também refuta o neurocomputacionalismo — a tese de que a mente é um software rodando no hardware neural. Brette chama essa visão de projeção antropomórfica falha, que confunde as ferramentas dos cientistas com a própria natureza. Ele ainda descarta a noção de que o cérebro processa informação, classificando-a como uma espécie de “flogisto epistêmico”, uma substância hipotética inventada para explicar aquilo que, por definição, já supõe.

Para o autor, tratar o cérebro como máquina biológica evoluída torna a tentativa de fazer engenharia reversa um empreendimento profundamente equivocado. Os neurônios não são componentes mecânicos, mas unidades vivas pertencentes ao corpo inteiro, que não podem ser modificadas para funcionar arbitrariamente. Em sua estrutura ecológica, Brette substitui conceitos de computação e representação pelos de interação e corporificação.

Na perspectiva do livro, a cognição é conhecer fazendo: quando uma pessoa vê uma cadeira, ela não a categoriza abstratamente, mas antecipa os movimentos necessários para sentar-se. Brette resgata a ideia do filósofo Henri Bergson da percepção como “ação virtual” e especula que a antecipação, e não a predição, é o conceito central da cognição e da vida. Essa abordagem coloca a interação entre organismo e ambiente no centro da investigação científica.

O princípio que rege os cérebros vivos, segundo Brette, é a organização, e não o processamento de sinais. A atividade cerebral é vista como o comportamento coletivo de uma colônia de entidades vivas, não como um computador distribuído. Organismos crescem, dividem-se, auto-organizam-se e são autônomos, proativos e criativos, profundamente enraizados em seus ambientes.

A visão centrada no processo inverte a lógica tradicional de estabilidade versus atividade, tratando constância como algo a ser explicado em um mundo onde nada permanece estático. Com isso, Brette pretende devolver o fôlego biológico à ciência do cérebro, afastando-a das metáforas computacionais que, para ele, sufocaram o campo por décadas.

Leia mais sobre o assunto na nature.com.


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