O voo de estreia do megafoguete Starship V3, a mais nova e ambiciosa iteração da SpaceX, encontrou um destino dramático ao amerissar de forma controlada no Oceano Índico enquanto operava com um de seus motores apagados. A missão, que decolou das instalações da Starbase no extremo sul do Texas, despejou um turbilhão de vitórias e perdas sobre o programa espacial mais vigiado do planeta.
Todos os 33 motores Raptor rugiram em uníssono na contagem regressiva, um alívio imediato após a tentativa frustrada de quinta-feira, quando problemas técnicos a segundos do relógio zerar forçaram o adiamento. O veículo alcançou uma trajetória orbital que os engenheiros classificaram como «dentro dos limites», permitindo-lhe ejetar um lote de 22 satélites simulados enquanto cruzava o Golfo do México.
Dois desses satélites falsos carregavam câmeras especialmente posicionadas para escanear o escudo térmico da nave, uma couraça de ladrilhos hexagonais negros que protege a estrutura durante a reentrada atmosférica. Imagens captadas por esses dispositivos foram transmitidas de volta ao controle de missão, revelando detalhes inéditos do comportamento do revestimento sob estresse extremo.
O propulsor Super Heavy, todavia, não conseguiu completar a queima completa de «boost back» — a manobra que permitiria um pouso controlado sobre o mar. Além disso, apenas cinco dos seis motores do estágio superior acenderam durante a ignição inicial, impedindo o veículo de ingressar na trilha orbital precisa e abortando o teste de reacendimento de um motor no vácuo do espaço.
Em transmissão ao vivo que acompanhava a missão, o engenheiro da SpaceX Dan Huot alertou que a trajetória permanecia viável, ainda que suborbital, e que a nave ainda poderia realizar uma amerissagem segura. A falha do motor, contudo, significou que a Starship precisaria executar a manobra de pouso com apenas dois propulsores em vez dos três habituais, um teste de fogo real para os controles de atitude do veículo.
A reentrada atmosférica transformou a nave em um espetáculo de plasma magenta brilhante, enquanto as câmeras a bordo transmitiam o momento exato em que a espaçonave mergulhava na faixa densa da atmosfera terrestre. A apresentadora da SpaceX Kate Tice havia antecipado que seria «uma reentrada um pouco apimentada», e as imagens corroboraram a previsão enquanto as abas dianteiras sofriam tensão adicional por conta dos tanques de propelente mais cheios que o esperado.
Num movimento que arrancou rugidos de celebração dos funcionários reunidos na sala de controle, a Starship V3 conseguiu balançar-se para a posição vertical e acionar os motores restantes para um pouso controlado. A amerissagem foi descrita por Huot como «no alvo», indicando que a nave tocou a água exatamente na zona designada, a despeito de todas as adversidades motoras enfrentadas minutos antes.
Segundo detalhou a cobertura ao vivo da CNN, o engenheiro de recuperação Suren Sanai, posicionado no navio de resgate a centenas de quilômetros da costa australiana, descreveu a experiência como «um dos sentimentos mais mágicos da Terra». Sanai relatou a emoção de ouvir os estrondos sônicos da Starship rompendo o céu sem avistar terra firme em qualquer direção, um isolamento oceânico que amplifica a sensação de testemunhar o futuro da exploração espacial.
O voo marcou o 12º teste do programa Starship e o primeiro desde outubro, após uma série de contratempos com o protótipo V2 e uma tentativa de lançamento abortada na noite de quinta-feira. A versão V3 é uma fera ampliada que se ergue a quase 400 pés de altura e foi projetada para gerar 18 milhões de libras de empuxo na decolagem, mais que o dobro do lendário Saturno V das missões Apollo.
A SpaceX corre contra o relógio para transformar a Starship em um veículo operacional capaz de lançar satélites e transportar humanos para o espaço profundo, mirando o plano da NASA de usar a nave para pousar astronautas na Lua até 2028. Um relatório recente do Painel Consultivo de Segurança Aeroespacial, órgão independente da NASA, acendeu alertas sobre a complexidade da Starship e os «desafios durante o programa de testes de voo em andamento», apontando lacunas na postura de testes e nas análises de sobrevivência da tripulação.
O gabinete do inspetor-geral da NASA foi ainda mais incisivo ao notar que, se os módulos lunares encontrarem um evento catastrófico, a agência não teria capacidade de resgatar astronautas encalhados no espaço ou na superfície lunar. A SpaceX não respondeu diretamente a esses relatórios, mas ressaltou em comunicado de outubro que seus contratos com a NASA, no valor de cerca de 4 bilhões de dólares, são de preço fixo — ou seja, a empresa não recebe mais dinheiro se o desenvolvimento atrasar ou não seguir conforme o planejado.
A competição com a Blue Origin, do bilionário Jeff Bezos, adiciona uma camada de pressão comercial e política ao cronograma. Sean Duffy, que serviu brevemente como administrador interino da NASA no ano passado, declarou publicamente que a agência usará o módulo lunar que estiver pronto primeiro para a missão de pouso, uma mudança sutil mas significativa em relação ao plano anterior, que designava a Starship como a escolhida exclusiva para a tarefa.
A Blue Origin planeja estrear um projeto preliminar de seu módulo Blue Moon ainda este ano, um veículo mais similar aos módulos da era Apollo que transportavam astronautas da órbita lunar até a superfície. A empresa também anunciou a pausa nos voos do foguete suborbital New Shepard — que levava celebridades como Katy Perry e William Shatner em viagens de 10 minutos à borda do espaço — para redirecionar recursos ao desenvolvimento de capacidades lunares tripuladas.
O CEO da SpaceX, Elon Musk, fez seu próprio movimento estratégico ao declarar em uma publicação de domingo de Super Bowl que a empresa havia deslocado prioridades de sua ambição de décadas por Marte para a construção de «uma cidade autossustentável na Lua». Foi uma guinada retórica dramática para alguém que passou mais de vinte anos martelando o sonho marciano como a grande razão de ser da companhia.
Documentos de oferta pública inicial arquivados pela SpaceX na quarta-feira revelaram detalhes financeiros fascinantes sobre a operação. A empresa gastou aproximadamente 3 bilhões de dólares em pesquisa e desenvolvimento para a Starship em 2025, ano em que registrou um prejuízo total de 4,9 bilhões de dólares, e aportou mais 1 bilhão no programa apenas nos três primeiros meses de 2026.
Os mesmos arquivos mostraram que Musk recebe o mesmo salário anual de 54.080 dólares desde 2019, mas sua compensação real virá em 15 parcelas de 66.666.665 ações, atreladas a marcos de avaliação de mercado que podem chegar a 7,5 trilhões de dólares. A condição mais extravagante, grafada literalmente nos documentos da empresa, é que o pagamento integral depende do «estabelecimento de uma colônia humana permanente em Marte com ao menos um milhão de habitantes».
A Starship também mantém viva uma ambição menos comentada, mas igualmente audaciosa: servir como uma espécie de avião hipersônico capaz de conectar quaisquer duas cidades da Terra em menos de uma hora. Os arquivos da abertura de capital mencionam explicitamente o mercado de logística e transporte terrestre como parte do plano, embora admitam desafios tecnológicos, econômicos e políticos, como restrições a voos supersônicos sobre terra firme devido a estrondos sônicos.
A presidente da SpaceX, Gwynne Shotwell, havia celebrado em 2018 o conceito de transporte «ponto a ponto» com foguetes como uma das ideias que mais a empolgavam, prevendo que se tornaria realidade em uma década. O site da empresa ainda exibe a estimativa teórica de um voo de 34 minutos entre Londres e Hong Kong, um vislumbre de um futuro em que a distância entre continentes se dissolveria em chamas de metano líquido.
Enquanto os destroços da Starship V3 repousam no fundo do Índico e os engenheiros dissecam os dados do voo, uma revelação de um cliente da SpaceX jogou luz sobre o custo do serviço: a Voyager Technologies divulgou um contrato de 90 milhões de dólares por um lançamento futuro. Para efeito de comparação, o Falcon 9 — atualmente o foguete comercial mais ativo do mundo — lança até 22,8 toneladas métricas em órbita por um preço de tabela entre 60 e 75 milhões de dólares, enquanto a Starship promete carregar entre 150 e 250 toneladas métricas.
O balanço do voo inaugural da V3, portanto, entrega um retrato fiel do estado da arte da exploração espacial privada: triunfos parciais que avançam a fronteira tecnológica enquanto lembram que o caminho até a Lua, e além, ainda está coalhado de incertezas técnicas e chamas controladas. A SpaceX espera começar a lançar satélites operacionais a bordo da Starship no segundo semestre de 2026, transformando o megarocket num ativo gerador de receita e não apenas num sorvedouro de bilhões de dólares.
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