Dentro de tanques pulsantes que mais lembram um laboratório saído de Frankenstein, uma startup americana mantém cérebros humanos vivos por até 24 horas após a morte do doador. A Bexorg, sediada em Connecticut, realiza experimentos que borram as fronteiras entre a vida e a morte com uma ousadia científica que poucos ousariam abraçar.
A tecnologia, batizada de BrainEx, bombeia um sangue sintético especial através da intrincada rede vascular do órgão, carregando oxigênio e nutrientes profundamente nos tecidos. Enquanto o sistema operacional da máquina controla temperatura e condições ideais, os cientistas administram drogas experimentais e observam as reações celulares em tempo real.
O fundador da Bexorg, Zvonimir Vrselja, revelou em entrevista à revista Science que os cérebros utilizados pertencem a pacientes com doenças neurodegenerativas, obtidos por meio de organizações que captam órgãos para transplante. Em cinco anos de operação, mais de 700 cérebros humanos já passaram por testes que, segundo os pesquisadores, podem acelerar drasticamente a descoberta de curas para Alzheimer e Parkinson.
A lógica por trás do método é tão perturbadora quanto fascinante: células cerebrais que passaram décadas reagindo a medicamentos, drogas e fatores ambientais oferecem uma complexidade impossível de replicar em modelos animais ou organoides de laboratório. Enquanto um camundongo pode não reagir a uma molécula, um cérebro humano de 60 ou 80 anos carrega uma história biológica que transforma cada teste em um mapa de possibilidades farmacêuticas.
A farmacêutica Biohaven já prepara o lançamento de um ensaio clínico baseado em dados colhidos dos cérebros desencarnados da Bexorg, mirando um tratamento que impulsiona o suprimento energético debilitado de neurônios doentes. Outro composto para Parkinson, que fracassara completamente em cobaias vivas, surpreendeu ao funcionar nos cérebros humanos com uma dose 20 vezes menor do que a inicialmente prevista.
A ideia de manter cérebros funcionais em cubas, no entanto, acende alertas éticos profundos, ecoando os temores do bioeticista Stephen Latham, da Universidade de Yale, que advertiu em 2019 sobre a ausência de supervisão institucional para a possível indução de consciência. Brendan Parent, bioeticista da Universidade de Nova York e membro do conselho consultivo da Bexorg, rebate que os órgãos são desprovidos da atividade neural coordenada necessária até para níveis mínimos de consciência.
Para eliminar qualquer risco residual, o sangue artificial carrega o anestésico propofol, suprimindo a atividade elétrica cerebral e garantindo que o tecido permaneça funcional apenas no sentido metabólico mais básico. Não há pensamentos, memórias ou qualquer centelha de experiência subjetiva, insiste a empresa, apenas uma plataforma viva de teste que, ao fim do ciclo de 24 horas, é desconectada e meticulosamente fatiada para análises posteriores.
Enquanto o governo americano pressiona pesquisadores a abandonar modelos animais em favor de sistemas baseados em tecidos humanos, a Bexorg se posiciona como uma alternativa capaz de economizar milhões de dólares e anos de desenvolvimento farmacêutico. A controvérsia, porém, está longe de se dissipar, reacendendo uma pergunta que a humanidade insiste em repetir: até onde se pode ir para tentar enganar a morte sem arrombar as portas do indizível, conforme documentou uma recente reportagem do Daily Mail.
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