Datafolha: retração dos bolsonaristas moderados consolidam a liderança de Lula

26.05.2026 - Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante Anúncio de entrega de unidades habitacionais do Residencial Morar Melhor no âmbito do Programa Minha Casa, Minha Vida, no Residencial Morar Melhor, Conjunto 15, Manaus - AM. Foto: Ricardo Stuckert / PR

Mapeamento detalhado das estratificações do Datafolha revela que a rejeição moral de Flávio Bolsonaro feriu sua aprovação entre jovens, sulistas e independentes, enquanto o atual presidente consolida ampla vantagem no eleitorado moderado de centro.

A mais recente pesquisa nacional do instituto Datafolha, realizada entre os dias 20 e 21 de maio de 2026, consolidou um ponto de virada estrutural na corrida presidencial. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ampliou sua liderança no primeiro turno para confortáveis nove pontos (40% contra 31% de Flávio Bolsonaro) e, de forma ainda mais significativa, quebrou o empate numérico no segundo turno, abrindo uma vantagem de 47% a 43% sobre o senador do PL.

Mais do que meras oscilações estatísticas, o detalhamento das estratificações do levantamento revela um fenômeno profundo de micro-sociologia eleitoral: a desidratação sistemática das candidaturas de extrema-direita em suas franjas moderadas e independentes, impulsionada pelo escândalo que vincula Flávio Bolsonaro ao Banco Master do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, e a sutil, porém decisiva, migração do eleitorado de centro em direção à estabilidade governamental.

A perda de tração de Flávio Bolsonaro, que recuou quatro pontos na média geral do primeiro turno em apenas uma semana, não ocorreu de forma homogênea. O senador fluminense sofreu uma sangria localizada, porém letal, exatamente nos segmentos que deveriam sustentar sua estratégia de se apresentar como uma face ‘moderada’ e tolerável da dinastia de extrema-direita.

Os estragos foram brutais entre os jovens de 25 a 34 anos (onde o senador desabou de 40% para 29%), na região Sul do país (recuo de 48% para 35%) e, crucialmente, no eleitorado de centro-direita moderado.

Para compreender a anatomia dessa queda, é preciso analisar o mapeamento ideológico exclusivo do Datafolha, que utiliza uma escala de alinhamento político de 1 a 5, em que o degrau 1 representa o bolsonarismo puro, o degrau 3 os independentes e o degrau 5, o petismo convicto. O cruzamento revela que o estrago na candidatura de Flávio Bolsonaro concentrou-se no degrau 2, correspondente aos ‘bolsonaristas moderados’ ou eleitores inclinados à direita, mas que não compartilham do radicalismo militante.

Nesse grupo, que representa 5% do total do eleitorado nacional, o apoio a Flávio Bolsonaro despencou de impressionantes 53% para 40% em poucos dias. Esse estrangulamento da candidatura oposicionista dá-se, em grande medida, pela fuga coordenada desses bolsonaristas moderados e do eleitorado independente de centro.

Repelidos pelas denúncias que envolvem o Banco Master e as visitas de Flávio a lobistas libertos da prisão, esses eleitores retiram de forma decidida o apoio à oposição, deixando a extrema-direita sitiada em seu núcleo ideológico mais radical.

Essa dinâmica de refluxo é explicada pelas primeiras fissuras e dúvidas no eleitorado considerado ultra-fiel. No degrau 1 do Datafolha (os bolsonaristas convictos, que representam 34% do eleitorado), as intenções de voto no senador também oscilaram negativamente de 82% para 77%.

O escândalo envolvendo Flávio Bolsonaro com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, coroado pela confissão pública do presidente do PL, Valdemar da Costa Neto, que admitiu que o parlamentar visitou pessoalmente o lobista no dia em que este foi solto da prisão, cobrou um preço político devastador. Para uma classe média conservadora e um empresariado sulista que buscam estabilidade econômica e moralidade administrativa, o retorno das suspeitas de corrupção e tráfico de influência em favor de banqueiros sob investigação atuou como um forte repelente.

Ao mesmo tempo em que a direita extremista perde base em suas próprias franjas, o grande centro político e o eleitorado independente de centro iniciam um movimento gravitacional em direção ao governo federal. No Datafolha, a parcela de eleitores classificada como ‘não alinhados’ (degrau 3 da escala, representando 26% da amostra) abandonou Flávio Bolsonaro de forma contundente: a intenção de voto dele nesse estrato de independentes caiu de 24% para 19% no primeiro turno.

No cenário de segundo turno direto, há um empate técnico entre Lula (34%) e Flávio (38%) nesse grupo, revelando que a maioria dos independentes prefere anular ou está indecisa a se engajar na candidatura da oposição.

Essa massa cinzenta de independentes e moderados se inclina de forma muito mais nítida a favor de Lula quando observamos a estratificação por avaliação de governo. Entre os eleitores que avaliam o governo Lula como ‘regular’, que representa a definição clássica e sociológica do eleitor de centro flutuante, nada menos que 51% declaram voto no atual presidente em um eventual segundo turno, contra apenas 34% em Flávio Bolsonaro.

Lula também assumiu a liderança numérica entre os eleitores com Ensino Superior completo (47% a 40%), quebrando uma barreira histórica de antipetismo nessa classe instruída.

A quebra sociodemográfica detalhada pelo Datafolha elucida com precisão cirúrgica os pontos de força e fraqueza de cada projeto. Lula tem suas maiores vantagens consolidadas entre as mulheres (51% a 37% de Flávio no segundo turno), nas faixas etárias maduras de 45 a 59 anos (49% a 39%) e acima de 60 anos (51% a 42%), entre os eleitores que estudaram até o ensino fundamental (60% a 34%), na parcela com renda familiar de até dois salários mínimos (55% a 35%), na Região Nordeste (63% a 28%) e entre os católicos (51% a 38%).

Por outro lado, os redutos de resistência de Flávio Bolsonaro concentram-se nas faixas de renda familiar de 2 a 5 salários (50% a 40% de Lula), de 5 a 10 salários (56% a 33%) e acima de 10 salários mínimos, onde atinge sua maior vantagem (61% a 35%). O senador do PL também mantém a dianteira nas regiões Sul (50% a 36%), Norte/Centro-Oeste (50% a 40%) e entre os eleitores evangélicos, onde vence por 56% a 33%.

Contudo, por se tratar de nichos geograficamente e demograficamente limitados, essas vantagens não compensam a perda generalizada de apoio no eleitorado de massa feminino e de baixa renda.

Os cenários alternativos testados pelo Datafolha sepultam ainda mais as esperanças de uma ‘terceira via’ ou de uma recuperação fácil da oposição. Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo) figuram como meros figurantes, oscilando entre 3% e 4% no primeiro turno e perdendo por margens de nove pontos para Lula nas simulações diretas de segundo turno (48% a 39% em ambos os casos).

Nem mesmo a substituição de Flávio por Michelle Bolsonaro surte efeito: a ex-primeira-dama pontua apenas 22% no primeiro turno estimulado contra 41% de Lula e, no confronto direto de segundo turno, perde por 48% a 43%, com uma rejeição de 31% que a impede de herdar integralmente o capital político do bolsonarismo original.

O diagnóstico final oferecido pelas estratificações do Datafolha em maio de 2026 é inequívoco. Diante de denúncias graves envolvendo o submundo do lobismo bancário e a incapacidade da oposição de oferecer uma alternativa viável e moderada, o eleitorado independente de centro e as franjas liberais da direita brasileira começaram a realizar uma migração pragmática de retorno à normalidade democrática.

Ao buscar a reeleição sustentado em uma economia controlada e no diálogo amplo, Lula não apenas mantém a resiliência de sua base histórica, mas expande sua influência sobre a zona cinzenta do eleitorado, deixando a extrema-direita sitiada em seu próprio radicalismo e isolada por seus próprios escândalos.

Miguel do Rosário: Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.
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