A morte ou remoção da rainha em uma colônia de vespas tropicais desencadeia um violento conflito pelo poder, com múltiplas fêmeas competindo agressivamente pela dominância reprodutiva. No entanto, em meio ao caos, um grupo discreto de operárias abandona a disputa e redobra o trabalho em tarefas essenciais, garantindo que a sociedade não entre em colapso.
A descoberta, publicada na revista Animal Behaviour por pesquisadores da University College London (UCL), revela um mecanismo surpreendente de resiliência nas sociedades cooperativas das vespas-de-papel tropicais (Polistes canadensis), espécie encontrada na América Central e do Sul continental. Os cientistas constataram que a sobrevivência da colônia depende inteiramente desses indivíduos que optam por trabalhar nos bastidores enquanto outras vespas lutam pelo poder.
Liderada pelo Dr. Owen Corbett, do Centro de Biodiversidade e Pesquisa Ambiental da UCL, a equipe removeu experimentalmente rainhas de colônias estabelecidas no Panamá e registrou o que se seguiu. O resultado foi uma explosão imediata de interações agressivas, com a rede social da colônia se desintegrando rapidamente enquanto múltiplas fêmeas competiam pela posição de liderança.
Em vez de uma transição ordenada de poder, a sucessão se mostrou um período de conflito intenso envolvendo muitos membros do grupo. Contudo, as colônias não entraram em colapso graças a uma classe distinta de vespas que os pesquisadores batizaram de compensadoras, indivíduos que evitaram as brigas e aumentaram seu investimento em forrageamento e cuidado com a prole.
Os compensadores não apresentavam diferenças biológicas em relação às vespas que lutavam pela dominância, sugerindo que seu comportamento reflete uma decisão estratégica, e não um papel fixo na hierarquia. Enquanto algumas fêmeas viam na disputa sua melhor chance de reprodução futura, outras priorizavam garantir a sobrevivência da ninhada, composta majoritariamente por seus próprios irmãos.
O estudo é fruto de uma análise renovada de dados comportamentais coletados pela equipe durante trabalho de campo no início dos anos 2000, oferecendo uma janela rara para uma forma pouco estudada de sucessão reprodutiva em vespas cooperativas tropicais. Diferentemente das espécies de clima temperado da Europa ou América do Norte, que possuem hierarquias altamente ordenadas, as vespas caribenhas operam em um sistema agressivo e caótico que amplia a compreensão sobre as diversas maneiras como sociedades animais resolvem conflitos de liderança.
Segundo os autores, a pesquisa desafia a ideia de que sociedades cooperativas dependem de sistemas de sucessão ordeiros e baseados em regras para permanecerem estáveis. A sucessão baseada em agressão, frequentemente considerada custosa demais para persistir, mostra-se viável quando indivíduos compensadores absorvem os custos do conflito, conforme apontou o portal phys.org na divulgação dos resultados.
A professora Seirian Sumner, também do Centro de Biodiversidade e Pesquisa Ambiental da UCL e autora sênior do artigo, destacou que entender como sociedades animais gerenciam conflitos pode iluminar o pensamento sobre cooperação de forma mais ampla. Em tempos de turbulência, a sociedade depende daqueles que continuam fazendo o trabalho essencial nos bastidores.
Leia mais sobre o assunto na phys.org.
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