O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, conseguiu um encontro com o presidente dos EUA, Donald Trump, em plena campanha eleitoral. O gesto, articulado por seu irmão Eduardo Bolsonaro, serve muito mais para desviar o foco do escândalo do Banco Master do que para construir uma agenda internacional.
Em vez de explicar os áudios que revelam o pedido de R$ 60 milhões ao banqueiro Daniel Vorcaro, Flávio centrou sua passagem por Washington na defesa de que Washington designe o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital como organizações terroristas. A proposta é uma tentativa de pautar a segurança pública, tema em que o governo Lula enfrenta avaliação negativa.
Segundo reportagem da BBC News Brasil, Flávio admitiu que não pediu endosso formal de Trump e minimizou a queda nas pesquisas. ‘Crise de quê? Aqui é uma campanha eleitoral, tem altos e baixos’, afirmou, enquanto o agregador de intenções de voto mostra o presidente Lula ampliando vantagem no segundo turno.
A reunião durou 1h40, conforme o senador, mas não foi registrada na agenda oficial da Casa Branca. Trump teria perguntado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, preso no Brasil, gesto que Flávio classificou como ‘humano’.
O discurso do pré-candidato do PL ecoa uma postura de submissão à potência estrangeira. Ele próprio já manifestou ‘inveja’ de bombardeios americanos contra barcos suspeitos de tráfico na região, sugerindo que ação semelhante ocorresse na Baía de Guanabara.
O governo Lula alerta que classificar facções como terroristas internacionais abriria brecha para intervenções militares estrangeiras em território nacional. O Itamaraty, inclusive, negou apoio logístico ao senador, por considerar que a visita não tinha caráter oficial.
Durante a entrevista, Flávio também entregou as riquezas minerais do país, prometendo que, se eleito, o Brasil será ‘alternativa real à China para o mundo livre’. A declaração coloca os recursos estratégicos brasileiros à disposição dos interesses de Washington.
A assessoria do senador tentou blindar o evento, avisando que a coletiva seria encerrada se surgissem perguntas sobre o Banco Master. Ainda assim, jornalistas questionaram a eficácia da manobra, diante do desgaste acumulado.
Flávio desafiou o governo Lula a instalar uma CPMI do Banco Master, tentando inverter o ônus da suspeita. A postura ignora que é o próprio senador quem aparece nos áudios pedindo dinheiro ao banqueiro.
Ao final, recebeu o apoio de Jason Miller, ex-conselheiro de Trump, mas o endosso veio de uma figura sem cargo no governo atual. O presidente americano não fez qualquer menção pública à candidatura do brasileiro.
Interlocutores do presidente Lula, ouvidos pela BBC News Brasil, não descartam que Trump ou aliados tentem interferir nas eleições brasileiras. O encontro no Salão Oval, mesmo sem declaração de apoio, já funciona como palanque eleitoral para o bolsonarismo.
Ao apostar no medo e na subserviência externa, Flávio Bolsonaro revela a fragilidade de sua campanha, que se tornou refém de um escândalo financeiro. A ‘cortina de fumaça’ pode até mudar momentaneamente o noticiário, mas não apaga os áudios do caso Master.
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