A produtora do filme ‘Dark Horse’ sobre Jair Bolsonaro tentou captar R$ 8,59 milhões pela Lei Rouanet, como revelou reportagem da Folha nesta segunda-feira. A revelação demole o discurso do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que jurara ter usado ‘zero de lei Rouanet’ e ‘zero de dinheiro público’ na cinebiografia do pai.
Karina Ferreira da Gama, sócia-administradora da Go Up Entertainment e presidente do Instituto Conhecer Brasil, inscreveu quatro projetos na lei de incentivo entre 2015 e 2019. Do montante total solicitado, apenas R$ 107 mil foram efetivamente captados — para o ballet ‘Rute’, apresentado em 2020.
O maior pedido veio à tona justamente durante o governo Bolsonaro: R$ 5,9 milhões para um festival itinerante da Marcha para Jesus em 15 estados, aprovado no fim de 2019 com previsão de atrair 3 milhões de pessoas. A pandemia adiou a captação até 2022, mas o instituto jamais conseguiu levantar a verba.
A entidade presidida por Karina também tentou captar outros R$ 2,4 milhões para o teatro ‘Turma do Smilinguido’ e a turnê da cantora Hadassah Perez, sem sucesso. Enquanto a produtora batia à porta da Rouanet, Flávio Bolsonaro e aliados mantinham o discurso padrão de ataque à lei como símbolo de ‘mamata’ cultural.
O Instituto Conhecer Brasil não se limitou à Rouanet: firmou contrato de R$ 108 milhões com a Prefeitura de São Paulo, na gestão Ricardo Nunes (MDB), para instalar internet wi-fi em comunidades de baixa renda. O deputado federal Mario Frias (PL-SP), produtor e roteirista de ‘Dark Horse’, também destinou R$ 2 milhões em emendas parlamentares ao instituto.
Em nota divulgada no dia 13 de maio, Flávio Bolsonaro afirmara que ‘o que aconteceu foi um filho procurando patrocínio privado para um filme privado sobre a história do próprio pai’. A frase soa ainda mais cínica agora que se sabe que a produtora do filme bateu repetidamente à porta do dinheiro público.
O banqueiro Daniel Vorcaro pagou R$ 61 milhões pela produção, de um total negociado de R$ 134 milhões com a família Bolsonaro. A Polícia Federal investiga se parte do dinheiro foi usada para cobrir despesas de Eduardo Bolsonaro (PL-SP) nos Estados Unidos, onde o ex-deputado vive desde fevereiro de 2025.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não deixou a contradição passar batido. Na quinta-feira (21), defendeu a Rouanet e disparou: ‘nunca fomos atrás da lei Daniel Vorcaro’ para financiar artista, em referência direta aos áudios revelados pelo Intercept Brasil entre o senador e o ex-banqueiro.
A linha de defesa de Flávio Bolsonaro sempre foi clara: demonizar a Rouanet como ‘lei da mamata’, enquanto seu próprio entorno familiar e político tentava — e em parte conseguiu — se beneficiar dos mesmos mecanismos. Agora, a tentativa frustrada de captação expõe o padrão: atacar o instrumento público em público, mas usá-lo nos bastidores.
O caso Vorcaro já havia rachado a base bolsonarista, mas a revelação de que a produtora do filme buscava ativamente recursos da Rouanet acrescenta uma camada de hipocrisia difícil de disfarçar. Para um campo político que construiu sua identidade na guerra cultural contra as leis de incentivo, cada novo fato tem o efeito de um retroescavador sobre o palanque de 2026.
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