Uma pesquisa da Universidade de Yale revelou como o cérebro transforma a observação de gestos e olhares em ações cooperativas entre primatas. O estudo, publicado na revista Neuron, demonstrou pela primeira vez como o cérebro acumula evidências sociais visuais antes de decidir agir em conjunto.
O experimento envolveu pares de macacos saguis treinados para puxar alavancas separadas com menos de um segundo de diferença. Eles eram recompensados com petiscos a cada tentativa sincronizada bem-sucedida. O sucesso dependia da leitura da linguagem corporal e dos movimentos oculares do companheiro, sem comunicação sonora.
Os saguis executaram a tarefa com consistência, revelando uma estratégia chamada de ‘olhar social’. Em vez de agir por impulso, avaliavam a prontidão do parceiro, concentrando-se na direção do olhar e nos microgestos que antecipam a ação.
Segundo reportagem do portal Phys.org, registros neurais mostraram que a atividade no córtex pré-frontal dorsomedial aumentava progressivamente. Essa região, associada ao pensamento social e à tomada de decisão, funcionava como um acumulador de evidências, disparando a ação cooperativa ao atingir um limiar crítico.
O mecanismo descoberto segue o modelo matemático de ‘deriva e difusão’, usado para explicar decisões individuais em laboratório. A surpresa foi constatar que o cérebro aplica a mesma lógica para desafios sociais complexos, que exigem leitura de intenções e estados mentais de outros seres.
Steve Chang, professor de psicologia e neurociência de Yale, comparou o achado a reunir evidências para decidir se é um bom momento para trabalhar em conjunto. Monika Jadi, professora associada de psiquiatria e neurociência, destacou que a cooperação eficiente requer um circuito fechado de comunicação, onde a coleta ativa de informações permite sincronia precisa.
Anirvan Nandy, professor associado de neurociência e psicologia, observou que os saguis resolveram o problema da cooperação ao reunir evidências antes de agir. Ele ressaltou que o cérebro usa mecanismos conservados para resolver problemas distintos, desde decisões solitárias até escolhas colaborativas.
O estudo, liderado pelo pós-doutorando Weikang Shi, pode ajudar a entender condições psiquiátricas ligadas a disfunções sociais. Os pesquisadores citam o transtorno do espectro autista como exemplo de como falhas nesse mecanismo podem comprometer interações cotidianas.
A equipe planeja investigar como múltiplas regiões cerebrais se comunicam durante a cooperação. Nandy explicou que áreas como o córtex orbitofrontal, associado a decisões baseadas em recompensa, interagem entre si. Decifrar essa comunicação neural é o próximo passo para compreender interações sociais humanas e animais.
Chang destacou que, embora a cooperação seja comum no reino animal, primatas são ‘visioncêntricos’. Eles usam o olhar como principal ferramenta de coleta de informações sociais. Roedores, por exemplo, dependem de vibrações dos bigodes e pistas olfativas para o mesmo fim.
A pesquisa reforça o papel evolutivo das expressões faciais e movimentos oculares no envio e leitura de intenções. Com vínculos sociais fortes, a coleta ativa de informações pode se tornar menos necessária, à medida que modelos preditivos do comportamento de parceiros familiares são internalizados.
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