Uma equipe de pesquisadores que monitorava o fundo do Rio Hudson, nos Estados Unidos, captou um som que inicialmente confundiram com o ruído de trens distantes. Ao analisar as gravações, descobriram que o barulho vinha do esturjão-do-atlântico, espécie ancestral e ameaçada de extinção, durante seu ritual de desova.
O fenômeno foi descrito como um trovão grave, quase mais sentido do que ouvido, marcando a primeira confirmação científica desse comportamento acústico. A pesquisa, liderada por especialistas da Universidade Cornell em parceria com órgãos ambientais do estado de Nova York, foi publicada na revista Endangered Species Research.
Os esturjões-do-atlântico são peixes que chegam a 4,2 metros de comprimento e 360 quilos, podendo viver entre 50 e 70 anos. A população que sobe o Hudson para se reproduzir, no entanto, caiu de cerca de 6 mil indivíduos no século 19 para menos de 700 atualmente, apesar de quase três décadas de proteção legal.
A bióloga pesqueira Amanda Higgs, coautora do estudo, explicou que a pesca comercial no passado foi devastadora porque as fêmeas demoram até 20 anos para atingir a maturidade reprodutiva. Uma fêmea representava uma captura lucrativa, com até 20% do seu peso corporal em ovos, dizimando a espécie por não conseguir repor a população no mesmo ritmo.
O trovão registrado resulta provavelmente do movimento vigoroso dos machos durante a fertilização dos ovos, que faz vibrar suas bexigas natatórias. O monitoramento acústico passivo, com hidrofones submersos por longos períodos, permitiu captar esses sons sem interferir no comportamento dos animais.
Os cientistas instalaram gravadores adicionais na última temporada de desova em áreas suspeitas, inclusive algumas ainda não protegidas. O objetivo é mapear novos sítios reprodutivos, oferecendo ao poder público um instrumento não invasivo para localizar e proteger esses locais críticos para a sobrevivência da espécie.
O ecólogo Aaron Rice, autor sênior do estudo, destacou que a equipe já compartilha os métodos com outros estados, como Maine e Delaware. A combinação da tecnologia da universidade com o conhecimento de campo dos fiscais ambientais tornou o projeto bem-sucedido.
A experiência de escutar o trovão também serve como ferramenta educativa para estudantes e o público em geral. Visitas escolares e um tour sonoro subaquático do Hudson foram criados para sensibilizar sobre a importância da espécie. Você segura um peixe que existe desde os dinossauros e pode viver 60 anos, e sente uma espécie de sabedoria, afirmou Christopher Bowser, coordenador educacional do projeto.
Com o som do esturjão agora rastreável, os conservacionistas esperam determinar com mais precisão o tamanho da população remanescente no Hudson. A descoberta reforça que, mesmo em rios modificados pelo homem, a natureza ainda guarda segredos capazes de inspirar respeito.
Leia mais sobre o assunto na phys.org.
📨 Inscreva-se na Newsletter de O Cafezinho
Receba nossas análises e as principais notícias diárias do Brasil e do Sul Global.