Opiliões caçam rãs vivas e desafiam o que se sabia sobre eles

Ilustração editorial sobre Estudo revela que opiliões caçam rãs vivas e redefinem seu papel na cadeia alimentar. (Ilustração: Cafezinho / Wan 2.6)

Um novo estudo publicado na revista Ecology and Evolution revela que opiliões, também conhecidos como ‘daddy longlegs’, atacam ativamente rãs adultas nas florestas tropicais da América do Sul. A descoberta redefine a imagem desses animais de meros necrófagos para a de predadores subestimados no ecossistema.

Conforme reportagem do Smithsonian Magazine, a pesquisa sugere que esses aracnídeos têm uma relação mais complexa com vertebrados do que se imaginava anteriormente. Isso aponta para uma nova compreensão de suas interações na cadeia alimentar tropical.

O primeiro registro ocorreu em fevereiro de 2020, quando o guia naturalista Lizardo Proaño, da Mashpi Lodge no Equador, avistou um opilião devorando uma rã viva de tamanho similar durante uma caminhada noturna. Acostumado a ver os animais comendo minhocas, lagartas e até restos de escorpião, Proaño não considerou a cena extraordinária a princípio.

No entanto, o biólogo Esteban Calvache, também da Mashpi Lodge, ficou intrigado ao saber do episódio e liderou uma investigação que compilou apenas dez casos documentados globalmente, todos na América do Sul. Em várias dessas observações, as rãs ainda estavam vivas, o que indica que os opiliões não estavam apenas se alimentando de carcaças.

Shahan Derkarabetian, curador de zoologia de invertebrados do Museu de História Natural de San Diego e não envolvido no estudo, afirmou que há muito desconhecido sobre os Opiliones. “Eles são um grupo tão diverso e versátil que nunca deixo de me surpreender quando descubro algo novo sobre eles”, disse.

Diferentemente das aranhas, os opiliões não possuem glândulas de veneno nem produzem seda, vagando pelo ambiente em busca de alimentos sólidos que trituram com suas peças bucais. São onívoros generalistas, mas Calvache ressalta que eles estão “constantemente se movendo, andando e vagando pela floresta para obter recursos”.

O artigo científico, publicado em abril, reuniu avistamentos do Equador, Brasil, Colômbia e Venezuela, incluindo um registro feito na plataforma de ciência cidadã iNaturalist. Para Derkarabetian, esses flagrantes demonstram como simples observações de campo podem gerar dados valiosos e até artigos científicos.

A abundância de rãs nas florestas tropicais pode explicar o comportamento predatório, com Calvache questionando: “se eles conseguem capturar uma, por que não comê-la?”. Algumas espécies de opiliões possuem peças bucais espinhosas e fortes, ideais para agarrar anfíbios escorregadios, especialmente os feridos ou sonolentos.

A descoberta desafia a visão tradicional de que artrópodes são apenas presas de vertebrados, sugerindo que a relação trófica é mais complexa. Isso é especialmente verdadeiro nos trópicos, onde os opiliões são maiores e mais robustos.

Como os opiliões são noturnos e mais ativos entre meia-noite e três da manhã, a caça às rãs provavelmente é mais comum do que os cientistas conseguem documentar. Estudos futuros poderão investigar se o dimorfismo sexual, com fêmeas maiores e machos com peças bucais ampliadas, influencia a capacidade de capturar anfíbios.


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