O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) transformou Washington em palanque de emergência, implorando ao governo dos Estados Unidos que classifique as facções PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas. O gesto orquestrado de desespero ocorre enquanto sua pré-campanha presidencial desaba no Brasil, exatamente após a divulgação de áudios que revelaram sua relação com o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.
O último Datafolha traduziu o estrago em números: no primeiro turno, Flávio caiu de 35% para 31% das intenções de voto, enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) subiu de 38% para 40%, abrindo uma vantagem de nove pontos. No segundo turno, a diferença é ainda mais simbólica — Lula chegou a 47%, contra 43% do senador, rompendo o empate técnico que mantinha viva a candidatura bolsonarista.
Segundo reportagem do G1, a viagem foi articulada pelo irmão, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que mobilizou a ala ideológica do governo Trump para abrir as portas da Casa Branca. Flávio se encontrou com o presidente na terça-feira (26) e, na quarta (27), teve reuniões com o vice-presidente J.D. Vance e o secretário de Estado Marco Rubio.
Diante de Trump, o pré-candidato pediu ‘enfaticamente’ a classificação das facções como terroristas e sugeriu que a medida só não avançou porque o presidente Lula teria solicitado à Casa Branca que ela não fosse implementada. Trump, segundo o relato, respondeu que analisará a possibilidade, enquanto o senador também propôs incluir o Brasil no ‘Escudo das Américas’, coalizão militar liderada pelos EUA.
Com Marco Rubio, o encontro durou cerca de 30 minutos e, de acordo com Flávio, o secretário mostrou-se favorável à designação. Uma imagem da reunião, compartilhada por Paulo Figueiredo, aliado da família Bolsonaro, circulou nas redes sociais como prova do prestígio adquirido. Já com J.D. Vance, o vice-presidente levantou questões sobre liberdade de expressão no Brasil, pauta cara ao bolsonarismo.
A tentativa de terceirizar o combate ao crime organizado esbarra, porém, em um muro de realismo. O Palácio do Planalto avalia que classificar PCC e CV como terroristas abriria margem para intervenções estrangeiras em território nacional, violando a soberania. Especialistas em segurança pública acrescentam que as leis brasileiras contra facções já preveem penas mais severas do que a legislação antiterrorismo americana.
Flávio prometeu a Trump que, se eleito, aderirá ao Escudo das Américas, enterrando a tradição diplomática de não ingerência e sinalizando alinhamento automático com Washington. A proposta expõe a contradição de quem posa de guardião da pátria, mas entrega a segurança nacional a uma potência estrangeira no primeiro aperto.
A origem do aperto é conhecida: os áudios que expuseram a intimidade do senador com o banqueiro Daniel Vorcaro, cujas operações são alvo de investigações, provocaram uma sangria de quatro pontos percentuais em um mês, conforme o Datafolha. Na simulação de segundo turno, a vantagem de Lula saltou de zero para quatro pontos, tornando a viagem aos EUA uma tentativa desesperada de pautar outro assunto.
A viagem pode render fotos e algum respiro midiático, mas o eleitorado percebe a manobra desesperada: o discurso de defesa nacional se desmancha quando o candidato implora por intervenção externa. A campanha de Flávio Bolsonaro sangra, e o palanque montado em Washington não esconde o cheiro de derrota iminente que os números do Datafolha escancaram.
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