Frank Garcia promove Corredor do Lobito como modelo de parceria com a África, mas críticos denunciam neocolonialismo estrutural

Passageiros desembarcam de trem na estação ferroviária do Lobito Corridor, Angola. (Foto: aljazeera.com)

O secretário-assistente de Estado para Assuntos Africanos dos EUA, Frank Garcia, apresentou o Corredor do Lobito como paradigma de uma nova fase nas relações entre Washington e o continente africano. A declaração foi feita durante sua audiência de confirmação perante o Comitê de Relações Exteriores do Senado em 5 de março de 2026, conforme reportagem da Al Jazeera.

O projeto integra o porto de Lobito, em Angola, às regiões mineradoras da República Democrática do Congo e da Zâmbia, com foco no escoamento de cobre, cobalto e lítio. Garcia afirmou que o corredor priorizará a criação de empregos e a integração regional, relegando a assistência humanitária a um papel secundário condicionado aos interesses dos EUA.

A infraestrutura central do empreendimento é o Caminho de Ferro de Benguela, construído originalmente em 1902 para exportar matérias-primas. Após décadas de abandono, a ferrovia foi reconstruída pela China entre 2014 e 2022 com investimento de 2 bilhões de dólares. Em 2022, o consórcio Lobito Atlantic Railway obteve concessão de 30 anos para operação e modernização da linha.

A Corporação Financeira de Desenvolvimento Internacional (DFC) dos EUA comprometeu financiamento de 753 milhões de dólares ao projeto em dezembro de 2025. O presidente-executivo da DFC, Ben Black, declarou que os recursos visam garantir cadeias de suprimentos confiáveis e impedir a monopolização pela China.

O professor de desenvolvimento global da Universidade SOAS de Londres, Mike Jennings, alertou que o corredor pode exacerbar crises em vez de resolvê-las. Jennings classificou a iniciativa como neocolonial, pois está estruturada para fortalecer fluxos comerciais de saída da África, não para integrar mercados regionais.

Análise de imagens de satélite do grupo Global Witness indica que até 6.500 pessoas podem ser deslocadas apenas na República Democrática do Congo. A organização apontou que a ferrovia atravessa comunidades vulneráveis com disputas fundiárias não resolvidas, tornando o projeto um teste para os parceiros ocidentais.

Um documento das Nações Unidas de outubro de 2024 já havia identificado riscos ambientais, sociais e institucionais associados ao projeto. A demanda global por minerais críticos colocou o corredor no centro da competição geopolítica entre os EUA e a China.

Jennings reforçou que o Corredor do Lobito não responde às necessidades de infraestrutura de forma autônoma ou centrada nas populações locais. Ele observou que o projeto serve primariamente a interesses externos, e a narrativa de “benefício mútuo” mascara uma lógica de extração que reproduz a dependência econômica.


📨 Inscreva-se na Newsletter de O Cafezinho

Receba nossas análises e as principais notícias diárias do Brasil e do Sul Global.

Redação:
Related Post

Privacidade e cookies: Este site utiliza cookies. Ao continuar a usar este site, você concorda com seu uso.