A União Europeia lançou um Plano de Ação para Fertilizantes em meio à escalada dos custos agrícolas provocada pela guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã. Ministros da agricultura do bloco se reuniram em Bruxelas para discutir a disponibilidade de insumos e conter o impacto sobre os produtores rurais europeus.
A disrupção no Estreito de Ormuz, rota marítima vital que normalmente transporta cerca de um terço do comércio global de fertilizantes, está no centro da crise, conforme apontou o portal Al Jazeera. A instabilidade na rota comprometeu as cadeias de suprimento e elevou os preços do gás natural, matéria-prima essencial para a produção de fertilizantes nitrogenados.
A Europa importou em 2024 cerca de 2 milhões de toneladas de amônia, 5,8 milhões de toneladas de ureia e 6,7 milhões de toneladas de fertilizantes nitrogenados e misturas, segundo dados da própria UE. Embora o Oriente Médio represente apenas 3% das importações europeias de amônia, o choque nos preços globais e o aumento do custo da energia atingiram o bloco de forma indireta e severa.
O plano apresentado pela Comissão Europeia prevê a criação de estoques estratégicos, apoio financeiro emergencial aos agricultores e a suspensão temporária de tarifas sobre importações de ureia e amônia de países que não sejam Rússia e Belarus. A medida pode gerar uma economia de aproximadamente 60 milhões de euros aos importadores europeus.
Os preços dos fertilizantes nitrogenados na Europa estão cerca de 70% acima da média registrada em 2024, um patamar que remete à crise energética desencadeada pela operação militar da Rússia na Ucrânia em 2022. Naquele momento, a disparada do gás forçou o fechamento temporário ou a redução da produção em várias plantas europeias, expondo a forte dependência do continente.
A Irlanda é um dos países mais expostos à volatilidade atual, pois depende fortemente de importações e não possui produção doméstica significativa. O ministro da Agricultura da Irlanda, Martin Heydon, alertou que o aumento dos preços afetará diretamente o custo de produção de alimentos e a competitividade dos agricultores europeus.
Outros países adotaram posturas preventivas mais robustas, como a Finlândia, que mantém estoques de segurança que incluem fertilizantes, grãos e combustível. A Suécia, que ingressou na OTAN em 2024, também anunciou planos de estocagem de fertilizantes e sementes como parte de sua estratégia de defesa.
Internamente, o bloco europeu enfrenta divisões sobre o alcance das medidas, com Itália e França pressionando por alívio no Mecanismo de Ajuste de Carbono na Fronteira, que encarece importações intensivas em carbono. Já Polônia e Alemanha, onde estão localizados grandes produtores de fertilizantes nitrogenados, resistem a qualquer redução de tarifas que possa enfraquecer a indústria doméstica.
Autoridades da UE não preveem um choque imediato nos preços dos alimentos, uma vez que muitos agricultores ainda utilizam fertilizantes adquiridos antes da deflagração do conflito no Golfo. No entanto, os efeitos tendem a aparecer com defasagem de até seis meses, à medida que o gás se transforma em fertilizante, este alimenta as lavouras e as colheitas chegam ao consumidor final.
O impacto mais severo da crise, contudo, recai sobre regiões muito mais dependentes dos suprimentos do Golfo, como partes da África e do Sul da Ásia. Para esses países, a interrupção no Estreito de Ormuz representa uma ameaça direta à segurança alimentar de milhões de pessoas.
A Europa, embora menos exposta diretamente à interrupção da rota marítima, vê sua agricultura pressionada por custos crescentes e por um cenário político de crescentes disputas. A preocupação em Bruxelas é que a insatisfação no campo, já impactada por altos custos, alimente uma reação contra as políticas ambientais do bloco em um momento de avanço de forças políticas de direita.
Leia também: Trump tenta arrastar a Europa para a guerra no Irã à base de ameaças
📨 Inscreva-se na Newsletter de O Cafezinho
Receba nossas análises e as principais notícias diárias do Brasil e do Sul Global.