Celebração do Eid em Gaza se transforma em ato de resistência sob bombardeios israelenses

Crianças palestinas caminham sobre tapetes em meio a ruínas durante celebração do Eid em Gaza. (Foto: aljazeera.com)

A noite de Eid al-Adha em Gaza foi interrompida por ataques israelenses que mataram seis pessoas e feriram outras vinte no bairro de Remal. Os mísseis atingiram a rua principal logo após as barracas de doces e a sorveteria Kazem, uma das mais antigas da cidade, receberem multidões em busca de momentos festivos.

O bloqueio imposto por Israel desde outubro de 2023 devastou a economia de Gaza. O preço de um cordeiro subiu para cerca de US$ 6 mil, dez vezes mais que antes da guerra, impedindo muitas famílias de realizar o sacrifício ritual. O quilo de chocolate, tradicional na data, também disparou para US$ 30, quatro vezes o valor anterior ao conflito.

A população lotou as ruas do bairro mais denso de Gaza na véspera do Eid, decidida a resgatar fragmentos de normalidade. Segundo relato publicado pelo portal Al Jazeera, o som de aviões sobrevoando a área gerou medo de um novo massacre, mas não afastou os compradores imediatamente.

Quando os primeiros foguetes atingiram a via cheia de civis, o pânico se instalou. Pessoas correram com sacolas, uma mãe gritava abraçada ao filho enquanto vidros, destroços e fumaça tomavam conta do ar. O sorvete caiu das mãos da autora do relato, que correu para casa tentando contatar os irmãos que estavam próximos ao local do impacto.

Minutos depois, uma segunda rodada de explosões aumentou o caos, com mulheres e crianças fugindo em lágrimas. Assim que os estilhaços baixaram e as mortes foram confirmadas, as lojas reabriram e a multidão retornou às compras, permanecendo nas ruas até as quatro da manhã.

A resistência de quem insiste em viver e celebrar foi interpretada como uma mensagem direta contra a ocupação. Na manhã seguinte, as famílias montaram mesas com doces e nozes, e o café da manhã foi servido com fígado congelado, em uma tentativa de reviver tradições.

Enquanto as preces eram realizadas, cantos fúnebres anunciavam mártires, interrompendo a esperança. Um pai revelou às filhas que aqueles eram os funerais das vítimas da noite anterior em Remal. Entre os 15 corpos enterrados em Gaza no primeiro dia do Eid estavam o comandante Mohammed Awda, sua esposa e três filhos, atingidos enquanto se preparavam para a festa.

A celebração do Eid não nasce do bem-estar, mas da teimosia em permanecer vivo. Nesse gesto reside a maior afronta a uma máquina de guerra que busca eliminar não apenas vidas, mas qualquer vestígio de humanidade. Celebrar, para os palestinos sitiados, deixou de ser um rito para se tornar a forma mais pura de resistência.

Fonte: Al Jazeera


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