Crianças no Iêmen são reduzidas a comer folhas para sobreviver, conforme imagens capturadas em um campo de deslocados próximo a Taëz. A diretora de coordenação de crises do Escritório de Assuntos Humanitários da ONU, Edem Wosornu, alertou que a população iemenita está por um fio.
Após mais de dez anos de conflito, o país acumula 377 mil mortos, entre vítimas diretas e indiretas da guerra. Outros 4,5 milhões de iemenitas foram deslocados internamente, enquanto mais da metade dos 40 milhões de habitantes necessita de ajuda humanitária urgente.
Os indicadores de saúde pública são devastadores: 2,2 milhões de crianças menores de cinco anos sofrem de desnutrição aguda. Quase 19 milhões de pessoas não têm acesso a cuidados médicos básicos, agravado pelo subfinanciamento do Plano de Intervenção Humanitária da ONU para 2025.
O responsável de campanha da Oxfam, Louis-Nicolas Jandeaux, denunciou que cortes na ajuda humanitária transformaram a assistência em variável de ajuste nos orçamentos dos países ricos. A redução forçou organizações a cortar programas de alimentação, saúde e proteção à população vulnerável.
Desde a trégua negociada pela ONU em 2022, os combates diminuíram, mas o bloqueio ao país persiste. A situação é descrita como nem guerra, nem paz, enquanto 73 funcionários da ONU permanecem detidos arbitrariamente pelas forças Ansarullah no norte do território.
O colapso econômico se aprofunda com a desvalorização salarial extrema. Funcionários públicos na área controlada pelo governo reconhecido internacionalmente recebem o equivalente a 25 dólares mensais, com atrasos de até seis meses.
A dependência de 90% das importações de alimentos torna o país vulnerável a choques externos. A guerra na Ucrânia, por exemplo, provocou alta nos preços do trigo, agravando a crise humanitária.
O jornalista Quentin Müller observa que a miséria inicial se agravou com a falência do Estado após mais de dez anos de guerra civil. A disputa por influência entre Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos fragmentou ainda mais as forças no terreno.
A Arábia Saudita assumiu o controle da porção do Iêmen fora do domínio Ansarullah, impondo um novo governo baseado em Áden. O reino reestruturou o aparato de segurança, substituindo aliados dos Emirados por quadros alinhados a Riade, muitos deles salafistas.
Os sauditas anunciaram investimentos de mais de 400 milhões de euros e fornecerão 150 milhões de dólares em derivados de petróleo até o final de 2026. Müller alerta, no entanto, que o modelo não é sustentável, pois um país estrangeiro não pode financiar indefinidamente outro.
A reunificação do Iêmen parece distante, com Riade tratando os Ansarullah como presença legítima no norte. O impasse prolongado sacrifica uma geração inteira, enquanto governança, economia e serviços básicos desmoronam.
Leia mais sobre o assunto na RFI.
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