A pergunta que domina os bastidores do Partido Liberal no Rio de Janeiro é direta e reveladora: “Quem vai trair primeiro?”. O senador Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência da República, e o ex-governador Cláudio Castro, que almeja uma vaga no Senado mesmo inelegível, estão enredados em uma teia de transações obscuras com o Banco Master.
Segundo revelou a coluna de José Casado na revista Veja, a resposta não deve demorar mais do que oito semanas, até a convenção de julho, quando o partido aclamará seus candidatos para as eleições de outubro. Ambos representam uma suposta renovação geracional da direita fluminense, mas preservaram antigos vícios e agora se veem como reféns de investigações.
Em julho do ano passado, o governo de Cláudio Castro destinou 2,6 bilhões de reais da previdência do funcionalismo fluminense a títulos podres e contas sigilosas administradas pelo Banco Master. Um mês antes, o Tribunal de Contas do Estado havia emitido um alerta expresso sobre graves irregularidades na alocação dos recursos.
O fundo Rioprevidência chegou a perder 1 milhão de reais por dia útil em manipulações de mercado com papéis de empresas como a Ambipar, conforme apontou o tribunal. O governo Castro, no entanto, optou por ignorar os alertas e manter o vínculo com a instituição financeira.
A principal investigação em curso trata da arquitetura de proteção política às fraudes financeiras bilionárias do Banco Master e de empresas associadas. Flávio Bolsonaro e Cláudio Castro escolheram entrar nesse labirinto de transações ao lado do ex-banqueiro Daniel Vorcaro.
A aliança política entre os dois remonta a 2018, quando Jair Bolsonaro recebeu sete de cada dez votos no estado do Rio contra Fernando Haddad, substituto de Lula na eleição presidencial. Quatro anos depois, o apoio fluminense à reeleição de Bolsonaro ainda foi expressivo, com 56% dos votos estaduais, mas ele acabou ultrapassado por Lula por margem estreita de 1,8 ponto percentual no cômputo nacional.
Durante oito anos, houve plena sintonia entre o senador e o então governador, sustentada por interesses eleitorais comuns e pelo crescente poder de influência sobre negócios do governo do estado. Esse condomínio de direita no Rio tem raízes seculares no ativismo católico e, desde os anos 1930, nos movimentos pentecostais.
Castro ingressou na vida pública pela coordenadoria do Ministério de Fé e Política da Arquidiocese do Rio de Janeiro. Flávio Bolsonaro, por sua vez, converteu-se ao evangelismo pouco antes de anunciar sua candidatura à Presidência, passando a integrar a bancada evangélica no Congresso.
A sociedade Bolsonaro & Castro vicejou na harmonia até que múltiplos inquéritos policiais passaram a envolver os dois políticos. O epílogo dessa parceria ganhou velocidade com as investigações sobre transações financeiras obscuras.
Agora, a pouco mais de seis meses do primeiro turno das eleições de 2026, a desconfiança mútua se torna combustível para uma guerra interna no PL. A pergunta “Quem vai trair primeiro?” expõe o temor de que um dos dois tente salvar a própria pele ao incriminar o outro.
Flávio Bolsonaro já se lançou candidato ao Palácio do Planalto e depende de um discurso anticorrupção para viabilizar sua campanha. O envolvimento direto com o Banco Master, no entanto, desmente esse discurso e pode dinamitar sua imagem perante eleitores que se dizem indignados com o sistema.
Cláudio Castro, por sua vez, busca reverter na Justiça sua inelegibilidade e disputar o Senado, mas carrega o peso de ser apontado como arquivo vivo da política subterrânea fluminense. A revelação de que seu governo enterrou 2,6 bilhões dos servidores em papéis de alto risco sob comando do Master agrava ainda mais sua situação judicial e política.
O Banco Master, pivô da crise, aparece como o elemento capaz de redefinir o tabuleiro sucessório no Rio e minar a hegemonia bolsonarista. A investigação sobre fraudes bilionárias e a conexão com fundos previdenciários transformaram a corrida de 2026 em um campo minado para o clã político de Jair Bolsonaro.
Para Jair Bolsonaro, que viu seu filho zero um assumir o papel de herdeiro político, o escândalo chega em momento crítico, quando tentava consolidar a candidatura familiar. O chamado “gabinete do ódio” e as investigações do 8 de janeiro já desgastaram a imagem do clã, e a novela do Banco Master pode ser o golpe definitivo nas pretensões de retorno ao poder.
A tensão no PL fluminense escancara um dilema típico de alianças forjadas em interesses financeiros: quando o barco começa a afundar, todos procuram um bode expiatório. A convenção de julho, portanto, não será apenas uma formalidade partidária, mas uma arena onde lealdades serão testadas sob pressão de investigações e cálculos eleitorais.
O tabuleiro político do Rio se transformou em um jogo de sobrevivência em que a lealdade ao partido pode ser a primeira vítima. No centro, o Banco Master atua como uma bomba-relógio prestes a implodir carreiras construídas ao longo de duas décadas.
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