Uma caminhada matinal pelo cemitério East Lawn, em Ithaca, Nova York, revelou uma descoberta impressionante. Uma imensa agregação de aproximadamente 5,5 milhões de abelhas subterrâneas prospera sob o solo do local há mais de um século.
A pesquisa, conduzida por uma equipe da Universidade Cornell e publicada na revista Apidologie, documenta uma das maiores concentrações já registradas desses insetos. Eles são fundamentais para a polinização dos pomares da região.
O achado foi relatado em reportagem da Wired. A descoberta começou a tomar forma na primavera de 2022, quando a técnica de laboratório Rachel Fordyce notou uma presença anômala de insetos durante seu trajeto para o trabalho.
Após coletar alguns espécimes, ela os apresentou ao entomólogo Bryan Danforth, da Cornell. Ele identificou os exemplares como Andrena regularis, popularmente conhecidas como abelhas-mineiras.
Diferentemente das abelhas melíferas, essa espécie selvagem adota um estilo de vida solitário. Constrói seus ninhos escavando túneis no solo.
Registros históricos indicam que o inseto frequenta o cemitério, fundado em 1878, desde pelo menos o início dos anos 1900. A relação duradoura entre o espaço urbano e a biodiversidade local destaca a resiliência desses polinizadores em ambientes protegidos da agricultura intensiva.
Para dimensionar o tamanho da agregação, os cientistas instalaram dez armadilhas no cemitério entre o final de março e meados de maio de 2023. Essas estruturas canalizam os insetos emergentes do subterrâneo para um recipiente de vidro, permitindo a contagem precisa.
Mais de 3.000 insetos de 16 espécies diferentes foram amostrados. A Andrena regularis foi a espécie predominante.
Extrapolando a densidade média registrada nas armadilhas, os pesquisadores estimaram uma população total entre 3 milhões e 8 milhões de indivíduos. O valor médio de 5,5 milhões equivale a mais de 200 colmeias domésticas.
O censo também forneceu dados inéditos sobre a biologia da espécie. Revelou que os machos emergem do solo alguns dias antes das fêmeas, nos primeiros dias quentes de abril, uma estratégia que maximiza as oportunidades de acasalamento.
As fêmeas, em seguida, escavam ninhos e depositam ovos em células preenchidas com pólen e néctar. A espécie exibe a particularidade de hibernar no estágio adulto sob a terra, o que lhe permite tornar-se ativa muito cedo na primavera.
Isso ocorre em perfeita sincronia com a floração das macieiras nos pomares próximos da Universidade Cornell. O monitoramento revelou ainda dinâmicas ecológicas complexas, como o parasitismo exercido por abelhas da espécie Nomada imbricata.
Essas abelhas depositam seus ovos nos ninhos da espécie hospedeira em detrimento das larvas originais. Essa intricada teia de interações reforça o valor científico do sítio.
A descoberta sublinha a importância de proteger os locais de nidificação das abelhas selvagens. Das quais 75% são espécies solitárias que vivem no subsolo.
Cemitérios históricos urbanos oferecem condições ideais para esses insetos. Solos arenosos de fácil escavação, ausência de pesticidas e ambiente livre de perturbações profundas são características desses espaços.
A preservação desses refúgios é fundamental para a segurança alimentar e o equilíbrio dos ecossistemas. Para evitar que populações dessa magnitude sejam acidentalmente destruídas, os autores do estudo lançaram uma iniciativa global de ciência cidadã.
O projeto convoca a população a relatar a presença de agregações de abelhas subterrâneas. O objetivo é mapear e salvaguardar esses polinizadores essenciais antes que a fragmentação de habitats ponha em risco sua sobrevivência.
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